Um último recado

Imagem | Nathan Ford
Imagem | Nathan Ford

 

 

Antes que vocês se dispersem, eu gostaria de dizer, eu disse. E olhei a cada um deles nos olhos. Eu gostaria de dizer, repeti, depois da pausa dramática, que o problema da literatura brasileira são vocês, os leitores. Como assim, nós?, uma moça de cabelo comprido e pintado artificialmente disse, tornando-se porta-voz automática do grupo. Não fizemos nada, ela acrescentou, desafiadora, eu diria até que irritada. Pois justamente, rebati, não fizeram nada, e é bem por isso que as coisas estão como estão. Eu tinha engasgado uma vontade de dizer que a falta de leitores era o grande desestímulo do escritor brasileiro. Mas achei que ficava bem deixar as coisas no pé em que estavam e por isso me abstive de acrescentar qualquer coisa. A culpa da literatura brasileira estar como está é de vocês não lerem, aí ela não pode crescer, dizer coisas importantes e profundas, fica assim rasa, superficial, boba. Havendo leitores e cobranças, a literatura se veria forçada a melhorar para agradá-los. A culpa é inteiramente de vocês, bradei, dessa vez me dirigindo a eles, e agora me deixem em paz que quero pensar.

 

Companhias constantes

Foto | Sigurd Grünberger
Foto | Sigurd Grünberger

 

 

A fera à espreita é sempre mais sedutora do que a que salta. 

John Banville — Eclipse

 

O que me atraiu nela primeiro foi a superfície. Disso não tenho dúvida, o primeiro mecanismo da atração para um homem é sempre a aparência. Os olhos, boca, seios, a grossura da perna, a maciez adivinhada da bunda, só depois as outras características assomam. No caso dela, um charme no sorriso, no gesto de mão ao jogar os cabelos para trás da orelha, o modo como levanta primeiro os olhos e então a cabeça em seguida. Então as camadas mais internas, o traço da personalidade, a manifestação do caráter, as sutilezas das emoções. Havia evidentemente esse problema comigo, essa disfunção que me faz cair de amores muito fácil e a vocação terrível para o sofrimento. A felicidade me incomoda de maneira profunda. Então, quando tudo parece ir bem, as peças se encaixando nos devidos lugares para que a vida possa continuar sua farsa a respeito da possibilidade de ser harmônica, eu dou um jeito de chutar a vida na canela com bastante força. Com ela não fiz diferente e logo dizia o quanto detestava seus gestos, seu charme, o quanto não podia mais suportar a feiura dela, todas as mentiras convincentes que estavam ao meu alcance usei para afastá-la para bem longe de mim e para me deixar em paz com a minha única e constante companheira, a infelicidade.