A têmpera da vida

Arte | Eckart Hahn
Arte | Eckart Hahn

 

 

Costumava ter os nervos expostos sensíveis a qualquer brisa; o mais leve rumor do ar um sismógrafo das emoções apontado para o mundo. As lágrimas portanto brotavam feito rio e devo ter contribuído para o volume dos oceanos. Disseram-me a escolha é sua faça como quiser mas saiba que sofrerá consequências. A escolha era minha ou eu não tinha escolha é tudo questão de ângulo. Minha sobrevivência nos intervalos evitando conflitos escondendo-me de mim recusando recuando acossado, uma formação com especialidade em toda sorte de covardias. Abstenções recusas encolhas observações ruminâncias ponderações apartidarismo. Vocifero em voz baixa. Desço os olhos. Não digo nem que sim nem que não às vezes nem digo. O resmungo é um mastigar perpétuo do arsenal de recusas mas tive que aceitar muita coisa, havia fila de sapos à espera de serem engolidos e segundo consta e ficou registrado a escolha era minha bem como as consequências que se seguem. Agora é tempo de pesar e medir o que decidi o que releguei quanto custou o que arrecadei; na balança os pratos se desequilibram penso muito a respeito do que pensei do que me movia então e afinal quando ouvi dizerem que a escolha é sua é minha e faço dela o que quiser. O medo era meu, veio na bagagem ou eu o ouvi nas entrelinhas e intervalos de quando disseram que sofreria as consequências. Provavelmente concluirei tarde demais que não soube fazer as melhores escolhas nem sequer administrei bem aquelas que afinal me couberam. Serei daqueles velhos loucos que saltam de paraquedas tentam recuperar o tempo perdido com tempero extra de filme de ação. Um velho maluquete que se perde no deserto ou se afoga atrás do tesouro não lê jornal na praça enquanto toma sol nem oferece sorvete aos netos antes do almoço. Um velho preso por porte de drogas que passa seis meses numa volta ao mundo ou um ano ou dois ou dez um velho que se perde para finalmente se encontrar. Sobretudo que não resmungou nunca mais.