Lembrar a infância

Foto | Lorraine Healy
Foto | Lorraine Healy

 

 

Meu analista me recomendou que escrevesse a respeito de minha memória e da infância. Tudo o que você conseguir se lembrar, ele disse, sério. Pensei imediatamente no romance de Italo Svevo, A consciência de Zeno. Passei numa papelaria e, dessa vez obediente, investi algum dinheiro sério num bloco de anotações que me agradou, importado e caro como um fígado ou um rim. Era o primeiro passo rumo à cura para iniciar o tratamento. Ou rumo a mais deslavada invenção, porque decidi que iria me dar uma infância atribulada e aventuresca, bem diferente do que tinha sido na verdade, com orfanatos, fugas espetaculares, sequestros, abduções, reviravoltas. Se minha doença não tiver cura — verdade é que de fato não creio que exista, é crônico e insolúvel meu problema —, pelo menos posso angariar algum reconhecimento como escritor de falsas memórias e lançar uma carreira literária, quem sabe. Então, a elas.

Tudo começou em…

 

decoração

imagem | george christakis
imagem | george christakis

 

 

ela era decoradora de interiores. a placa dizia psicóloga. os pacientes se sentavam no sofá e abriam a tampa dos problemas, que nunca eram poucos e ela, judiciosa gentil firme, determinava: isso vai aqui aquilo vai ali aquilo outro acolá. quando viam, a vida tinha se ajeitado e eles conseguiam aprimorar. fato que a vida, de maneira definitiva, não tem como ser ajeitada em caráter permanente, é toda vez de modo precário, arruma daqui desarruma dali ajeita de um lado desanda do outro. assim vão, equilibristas a sustentar pratos no alto de varetas, um dois três cinco doze de uma vez. ela dava a impressão de que não era tarefa de outro mundo manter tudo em sustentação, o sujeito melhorava recebia alta ficava feliz orgulhoso consigo e aquilo durava o quê alguns meses. quando percebia que a coisa tinha desarrumado de novo e pensava em voltar ao sofá mágico era tarde, um dos desarranjos normalmente era financeiro e não permitia nova série de consultas.