Modelos de narrativa

Foto | Jose Diniz
Foto | Jose Diniz

 

 

O homem saiu da neblina como se estivesse nadando peito: cortava o ar branco a sua frente com as mãos unidas e o punha para trás pelas laterais do corpo, enquanto as pernas se dobravam e depois se estendiam, para empurrar. Pensei: estou sonhando, só posso estar sonhando. Mas minha consciência, essa infame, me desmentia, eu estava acordado. Então louco, talvez?, ponderei. E esse modelo de racionalidade talvez confirmasse a loucura. O homem se aproximou e ao passar ao meu lado, virou o rosto para mim e disse:

— Talvez você esteja numa narrativa surrealista.

Devo dizer que aquilo, ao esclarecer a situação, me tranquilizou muito.

 

Sobre o otimismo

grãos-de-café

 

 

Adquiriu otimismo como se adquire uma doença: de maneira inadvertida e indesejável. Dizia não ter forças para evitar ver o lado bom e promissor das coisas. Eu olhava em volta e via tudo se desmoronando: guerras, conflitos, ambições desmesuradas, corrupção e não me restava alternativa a não ser achar que o meu amigo estava louco. Ouvi-lo falar do copo meio cheio tornou-se tormento e em mais de uma ocasião me vi forçado a conter meus punhos para não lhe dar um soco. Era irritante demais aquela posição que ele adotou: era improvável a não ter mais fim e no entanto estava lá. Então um dia eu e os que se irritavam junto comigo pudemos respirar aliviados, o que nosso amigo tinha era realmente um distúrbio cerebral que lhe provocava o otimismo exacerbado, ele foi diagnosticado. O que não foi surpresa: meu amigo recusou-se à cirurgia oferecida, que poderia lhe restabelecer a correta dimensão da realidade. Preferiu manter o filtro que a doença lhe proporcionava e não tive remédio menos amargo a não ser apoiá-lo na decisão e continuar me irritando com ele e com o otimismo inabalável. Faria de tudo para disfarçar minha inveja.

 

Treinos da infância

máquina-de-escrever

 

 

Houve um dia, ali pelo fim da infância, em que me mandaram para aulas de datilografia. Era uma sala de primeiro andar num velho edifício, a que se chegava por uma escada sombria que desembocava num corredor largo. Por fim, chegava-se à sala cheia de mesas com velhas Olivettis pesadonas. Enquanto olhava com o rabo de olho para o volume sob a blusa da orientadora, fazia somar trilhas de asdfg, depois trilhas de çlkjh, se amontoando na página branca como fileiras de exércitos. Começava ali o jornalista, começava o escritor. Durante anos, no entanto, considerados inclusive os seios desejados da orientadora, aquela sala do primeiro andar serviu de locação para várias passagens da minha vida. Até hoje, é lá minha Wall Street particular onde trabalha (ou prefere não trabalhar) o escrivão Bartleby. Nova York tem conexões com o interior de Goiás, o que comprova que os cenários da imaginação são bem mais interessantes do que os da realidade.

 

Um mergulho em névoas

Ilustração | Stamatis Laskos
Ilustração | Stamatis Laskos

 

 

O cérebro mergulhado numa névoa provocada pela ressaca, ele começou a pensar acerca da realidade, simplesmente para praticar o exercício de ter dúvidas. A realidade, pensou, depende do meu cérebro para existir e embora eu possa um dia não mais estar aqui e possa supor que ela vai prosseguir do modo como se apresenta hoje para mim, o fato de não mais percebê-la fará com que ela não exista mais para mim, porque eu não existirei mais. De modo que a realidade é só parte da minha imaginação e nada mais. E porque estava cansado e com o cérebro cheio de névoa, adormeceu e parou de ter esses pensamentos de certo modo inquietantes.

 

Bifurcações da vida

autopistas

 

 

O custo de vida subiu na mesma proporção da minha desconfiança de que aquele mês não chegaria ao fim tão bem — algo mais grave que o preço das coisas se fazia anunciar em meio à invisibilidade. Em mais de uma situação, os pelos de minha nuca se arrepiaram, mas daquela vez o arrepio tinha outra classe de emoção impregnada. Quando deixei a pequena cidade interiorana e mergulhei no nevoeiro com meu carro, tive a impressão nítida de que mergulhava num sonho ou num pesadelo (naquele momento não conseguia ainda ter certeza) e nem ter aumentado o volume da música no painel do carro me tranquilizou. Até hoje não estou bem certo se minha vida continuou do ponto onde havia parado antes ou se naquela bifurcação eu entrei no reino dos sonhos e continuo nele até o momento em que transcrevo isto, enquanto aguardo o dia em que finalmente me será dado despertar de maneira definitiva.

 

o fim do mundo

avião

 

 

talvez seja tudo parte da sua imaginação, não sei. mas em 1969 você era um pequeno garoto, meio perdido, meio assustado, meio contente e curioso, quantas metades existem, mesmo? o fato é que do modo como você se lembra, junto com a informação pelo rádio (não havia televisão na casa da família naquela pequena cidade interiorana) de que o homem ia conseguir pisar na lua começou a se espalhar o boato de que o mundo se acabaria numa explosão e no começo aquilo parecia divertido, por que não?, que acabe, bem feito! mas o desespero da família começa a mudar sua disposição e logo todos estão chorando, você inclusive. quando o homem afinal pousa na lua e dá o grande salto para a humanidade, o mundo permanece onde está e a família esconde a vergonha num riso nervoso e aliviado. anos mais tarde, muitos anos mesmo, quando você tenta confirmar a história, as pessoas da família riem sem graça e desmentem, isso nunca aconteceu do jeito como você se recorda, dizem. parecem convencidas, tanto tempo se passou, aprenderam a disfarçar dissabores antigos. agora você vai ter que decidir em quem confiar: se na sua memória, que você sabe que lhe prega uns truques de vez em quando, se na sua capacidade de avaliar que a família está mentindo, porque sente uma vergonha incrível do modo como chorou naquela época e não quer em absoluto remexer nesse assunto.

 

encontros improváveis

xícara-de-café

 

 

e se a vida se parece com uma ficção, faz sentido que naquele determinado momento eu me encontrasse diante da biblioteca pública municipal, no bairro de boedo, em plena buenos aires, e diante de mim, para ser preciso a alguns poucos metros, atrás de uma porta antiga, estivesse o escritório de jorge luis borges, um dos que ele teve na cidade. mas como a ficção da vida é quase sempre mais cruel do que a outra, o dia era sábado e o escritório, tanto quanto a biblioteca, estava fechado, porque essas coisas não funcionam nos fins de semana, o que considerei lamentável. não pude deixar de pensar que havia algum significado oculto no fato de o escritório de borges estar fechado para mim (claro que estava fechado para qualquer outro que também fosse até lá). entrei numa pizzaria, duas casas ao lado, para perguntar qual era o rumo da estação de metrô. essa a ficção da vida: informações, demora, caminhada, metrô, o que se pensa em todo e cada um dos intervalos em que tudo transcorre, como se a vida fosse representada por estar mergulhado num rio lento e caudaloso, ou melhor, em ser esse rio que caminha lentamente. mas por dentro eu ia bolando uma história na qual borges ia me receber à porta do escritório e me convidava para entrar, me oferecia café e trocávamos uns bons dedos de prosa a respeito dos livros que estávamos escrevendo por aqueles dias e, sem comentar isso com ele porque seria deselegante, me parecia que o meu era um pouquinho melhor.

 

distrações

ilustração | carel visser
ilustração | carel visser

 

 

pensando em matemática, ou seja, pensando no mundo não apenas nas três dimensões em que ele se apresenta, mas em quatro, cinco ou mais, aquele geômetra distraído acabou por cair num buraco. não se preocupou tanto com o fato (fatos são a ficção da realidade, concluiu um ou dois raciocínios mais tarde) e continuou a fazer cálculos e contas, ponderar a respeito de conjecturas e desenvolver teses. quando se deu conta de que era preciso pedir socorro, era tarde e ele foi obrigado a passar duas noites sem comer, até que o acaso, que desdenha da matemática, colocou-lhe um rapaz no caminho e ele pôde sair do buraco. precisou ser reidratado antes de retomar o fio dos cálculos do ponto onde havia interrompido e lamentou por esse tempo perdido, mas depois pensou de novo e concluiu que tempo não se perde, gasta-se em aprimoramentos.

 

clodoaldo

mergulho

 

 

renunciar a escrever, ele anunciou. zero de impacto. quer dizer, dona dolores, a mulher que usava bobes — bobes! — no cabelo e lhe servia um prato mais ou menos morno no jantar, ela resmungou algo. mas deve ter sido: quer o jantar agora ou mais tarde? e não: oh, que pena, não faça isso. clodoaldo, o dono da renúncia, mora num país encalacrado na cabeça, bem diferente daquele em que divide a cama a velhice as dores as dívidas com dolores e o banheiro com os bobes. o paraíso é a raspadinha que dá prêmio instantâneo. inferno é prestação.