O que Ulisses não ouve

Ulisses continua o mesmo depois de ouvir o canto das Sereias? Muito improvável. Narrativamente, sim, a coisa segue o traçado. Mas penso se houve um dia esse homem que se fez amarrar ao mastro do barco para não ceder à tentação, e penso que se o que ele de fato ouviu não pode contar a ninguém, é possível que não tenha ouvido.

As Sereias, em vez de cantarem para Ulisses, desconfiaram de sua artimanha e se mantiveram em silêncio. Ele se contorceu no mastro não porque estava em êxtase, mas porque lhe faltou a oportunidade para o êxtase, ele se esticou à espera de um momento que lhe foi negado. Os companheiros, com cera nos ouvidos, supuseram que se tratasse do canto das Sereias, mas na verdade era por seu silêncio que ele se contorcia.

Ulisses jamais ouviu esse canto, permitam-me a indulgência de contemplar um pouco essa hipótese.

— Paulo Paniago

Psicanálise da rejeição

Arte | Kent Williams
Arte | Kent Williams

 

 

Escritores escrevem e sofrem recusas, várias, sucessivas vezes. Acumulam nãos, cartas negativas, como se fossem o avesso de prêmios que supõem merecer. Depois, no futuro, concedem entrevistas nas quais explicam o que julgam terem sido os motivos para tanta rejeição e, velada, discretamente, agradecem o fato de terem sido enfim reconhecidos em talento. Agora são parte do outro time, vitorioso, as cartas de recusa podem fazer parte do anedotário pessoal relegado ao passado. O estigma foi vencido. Mas não há quem estude e compreenda o efeito dessas tantas recusas na vida emocional dessas criaturas que vêm de fábrica já emocionalmente perturbadas, para início de conversa, a ponto de terem escolhido como atividade justamente escrever. Em alguma oportunidade, poderão talvez escrever uma carta de recusa a um editor e nesse dia começa a vingança.