As coisas não se ajeitam

Arte | Marc Folly
Arte | Marc Folly

 

 

Abri a porta do escritório e Lauro estava com a miniatura de rastelo na mão, fazia desenhos na areia do jardinzinho japonês. Ele levantou os olhos. Você é um cretino, eu disse. Ele não se abalou, claro. Nesse nosso ramo ser chamado de cretino é o mínimo que acontece. Lauro levantou a sobrancelha. O que foi?, indagou. Elisa me contou o que aconteceu, falei. Ele voltou a chafurdar a areia, como se fosse revelar o segredo escondido ali. O que foi que ela te disse que aconteceu?, ele quis saber, como se fosse simplesmente mais uma conversa protocolar ou eu fosse apenas mais um cliente chatonildo a quem se deve explicar o básico da linguagem publicitária. O que ela me disse?, fiquei indignado, ou o que realmente aconteceu? Ou você não passou uma cantada nela, seu filho da puta? Ele voltou a erguer os olhos de peixe morto. Ia adiantar se eu contasse a verdade?, ele disse. Que ela me cantou e quando eu disse não ela ficou puta e disse que ia se vingar e inventar uma história a meu respeito para você, só para me sacanear? Bem, foi isso, ele acrescentou. É uma boa historinha essa sua aí, eu disse. Pena que não cola comigo. Pois é, ele disse, pena mesmo, porque você no máximo ia ficar pensando no que foi, no que não foi, e a tendência vai ser acreditar nela e me tratar como o cretino que sou. Mas não nesse caso. Para minha sorte, ou porque sou inteligente e prevenido, gravei a conversa. Ele puxou do bolso o gravador, colocou-o sobre a mesa e ergueu de novo a sobrancelha: quer que eu ligue? O resto foi como se pode imaginar, a prova de que a cretinice não é prerrogativa exclusiva de publicitários no exercício da profissão.

 

um tipo estranho

imagem | nadja sveir
imagem | nadja sveir

 

 

tenho apenas uma coisa para te dizer ele me disse há muito tempo tanto tempo que a memória talvez não me seja favorável estávamos num bar sossegado a mesa recebia uma iluminação indireta e pode ser que o consumo de álcool tenha sido o suficiente para nos fazer abrir o coração e soltar a língua é preciso ele me disse com aquela voz rouca que parecia sair dele com extrema dificuldade é preciso perdoar as pessoas mais velhas pelos erros que cometem então eu bufei era o que fazia normalmente em circunstâncias parecidas porque são mais velhas estão automaticamente perdoadas é isso perguntei um tom mais alto do que deveria soar mesmo que sejam velhos fazendo cagadas porque me corrija se eu estiver errado mas o que você fez quando abandonou a minha mãe e a mim e a meus irmãos o que você fez foi uma tremenda de uma cagada ou agora você arrumou também um outro nome para isso e por que a pessoa só por ser mais velha fica automaticamente perdoada quis saber também não consigo entender qual é a relação o álcool podia soltar a língua mas não me amolecia os sentimentos você por acaso conhece os meus motivos ele replicou não importa o que são emendei não importa você pode explicar o quanto quiser e da maneira que quiser isso não muda o fato de que você foi um imbecil quando nos abandonou que homem de verdade faz isso com a própria família não dá para conversar direito com você ele reclamou você não escuta ninguém quando foi que você se transformou nessa pessoa assim tão autoritária está bem me acalmei está bem vou ouvir agora pode falar eu não ia dar o braço a torcer e admitir que ele tinha razão ao dizer que eu tinha me transformado num autoritário por isso fiz força para me acalmar e aproveitei para mandar um gole imenso na caneca ele então abriu a boca e disse coisas a respeito das quais não consigo falar com ninguém porque são terríveis demais nem mesmo com meu terapeuta consegui falar mas devo dizer que meu ressentimento se aplacou depois dessa conversa ou talvez não tenha sido nesse dia minha memória às vezes me engana você sabe como é estou velho e acho que os velhos no fim das contas devem ser perdoados mais cedo ou mais tarde.