Quando chega o fim

carro-e-sofá

 

 

Ela estava quebrando a louça e nossas memórias no mesmo gesto furioso de as atirar contra a parede. O passado tem formas estranhas de se manifestar. Lembrei dos amigos reunidos em torno daqueles pratos, próximos de nós na felicidade da refeição e das histórias compartilhadas. Lembrei dos jantares silenciosos em volta da mesa, ela e eu, em que engolimos a sopa e nossos ressentimentos, as mágoas de sobremesa, as reconciliações guardadas para o dia seguinte. Nossa vida conjugal fraturada ao longo dos anos e agora, despedaçada de vez ali, com aquele gesto de jogar a louça, de gritar, os vizinhos, supus, já deviam estar chamando a polícia, íamos envolver todo o prédio em nossa separação, todo o bairro e depois todos os presos da delegacia. Seríamos manchete dos jornais do dia seguinte, estaríamos nas discussões das redes sociais, no trailer antes do filme, sem qualquer temor de estragar o enredo: nossa separação era igual a de tantos outros casais, talvez apenas um pouco mais ruidosa e com menos porcelana no fim. Como íamos repartir os amigos, lançando-os contra a parede? Metade para ela, metade para mim? Impossível, não daria certo. Quando só tinha um último prato, renovei as esperanças: quem sabe um novo jogo de jantar e aquela explosão nos colocaria de novo nos trilhos, uma sobrevida, prontos para começar nova etapa do casamento? Foi que o propus a ela, sem muito sucesso, no entanto. Quando uma mulher se põe a jogar a louça contra a parede é porque o ponto de reconciliação foi ultrapassado há muito tempo. Agora sei disso. Dividimos um último item da nossa cartela conjugal: as aspirinas, que só curam as dores da superfície.