As coisas não se ajeitam

Arte | Marc Folly
Arte | Marc Folly

 

 

Abri a porta do escritório e Lauro estava com a miniatura de rastelo na mão, fazia desenhos na areia do jardinzinho japonês. Ele levantou os olhos. Você é um cretino, eu disse. Ele não se abalou, claro. Nesse nosso ramo ser chamado de cretino é o mínimo que acontece. Lauro levantou a sobrancelha. O que foi?, indagou. Elisa me contou o que aconteceu, falei. Ele voltou a chafurdar a areia, como se fosse revelar o segredo escondido ali. O que foi que ela te disse que aconteceu?, ele quis saber, como se fosse simplesmente mais uma conversa protocolar ou eu fosse apenas mais um cliente chatonildo a quem se deve explicar o básico da linguagem publicitária. O que ela me disse?, fiquei indignado, ou o que realmente aconteceu? Ou você não passou uma cantada nela, seu filho da puta? Ele voltou a erguer os olhos de peixe morto. Ia adiantar se eu contasse a verdade?, ele disse. Que ela me cantou e quando eu disse não ela ficou puta e disse que ia se vingar e inventar uma história a meu respeito para você, só para me sacanear? Bem, foi isso, ele acrescentou. É uma boa historinha essa sua aí, eu disse. Pena que não cola comigo. Pois é, ele disse, pena mesmo, porque você no máximo ia ficar pensando no que foi, no que não foi, e a tendência vai ser acreditar nela e me tratar como o cretino que sou. Mas não nesse caso. Para minha sorte, ou porque sou inteligente e prevenido, gravei a conversa. Ele puxou do bolso o gravador, colocou-o sobre a mesa e ergueu de novo a sobrancelha: quer que eu ligue? O resto foi como se pode imaginar, a prova de que a cretinice não é prerrogativa exclusiva de publicitários no exercício da profissão.

 

Não é bem assim

Arte | Federico Infante
Arte | Federico Infante

 

 

Seu Orozimbo sofria horrores com a molecada. Descobriram que ele tirava um frasco de álcool do bolso do terno e depois de embeber um lenço, limpava a mão sempre que alguém o tocava. A diversão da molecada era, portanto, passar correndo por ele e tocar-lhe a mão. Esperavam que ele fizesse lentamente o ritual asséptico para então o próximo menino avançar e fazer tudo de novo. Seu Orozimbo devia chamá-los mentalmente de cretinos, suponho. Por fora, ostentava terno arcaico, chapéu, um conjunto de indumentária antiquada demais para meados dos anos setenta. Andava encurvado por algum problema na coluna e tinha rosto velhíssimo. Atordoado por aquele assédio terrível de crianças interioranas e absolutamente desocupadas, lastimava a falta de modos, lastimava os dias em que era jovem e andava empertigado, em que não tinha obsessões com limpeza tão visíveis, em que era ele a torturar os outros, aqueles judeus que se submeteram a experiências no campo de concentração em que desempenhara as funções. A verdade é que agora parece que seu Orozimbo está pagando alguns dos pecados que cometeu, com larga vantagem, inclusive, se alguém se der o trabalho de comparar o que infligiu e o que sofre. Os pais das crianças apelam para a compaixão e tentam demover os pequenos da travessura, mas a verdade é que ela continua a acontecer impunemente.

 

À procura do segredo

planta

 

 

As minhas opções: neurastenia ou a liberdade das ruas. Correndo risco ser flagrado pelo meu chefe mais cedo ou mais tarde e sumamente demitido — por justa causa, ainda por cima — decidi-me pelas ruas. Acompanhei ao acaso o fluxo de algumas pernas femininas, recusei comprar loteria duas vezes, estudei a inclinação do sol nas laterais de uns prédios, acomodei-me como pude à vida, imaginando que poderia decifrar-lhe o segredo. No dia seguinte eu voltaria ao trabalho, humildemente me submeteria à comodidade embaçada que a rotina também me proporciona. Sabia que teria de esperar a próxima crise, o surto seguinte para de novo arrumar uma desculpa e lançar-me à rua como se fosse repórter especial da vida. Um dia descubro o segredo.

 

O que você não precisa saber

cão

 

 

Todos os segredos parecem ter perdido o sentido de existir. No entanto, por mais que a transparência cresça e se torne o horizonte provável de tudo e de todos, os segredos ainda seduzem, com seu poder indiscriminado de informações privilegiadas, ganâncias em vias de serem satisfeitas. Nenhum mistério está intacto, mas é sempre possível descobrir um jeito novo de elaborá-lo. Não se preocupe, seu segredo está seguro comigo, ela disse, usando a senha universal para começar a revelá-lo a outras pessoas. Mas a verdade é que nunca contei a ela o segredo por trás do segredo. O que se revela é sempre a parte mais amena. A mais pesada que o ar, às vezes nem mesmo a consciência está pronta para saber.

 

guarde na geladeira

foto | jim buckley
foto | jim buckley

 

 

ela abre a geladeira, que ronrona lenta e lança luz baça para fora; a cozinha afogada no lusco-fusco da tarde. mergulha meio corpo lá dentro daquele gato gelado e sai com um tomate à beira de passar do ponto. eu poderia estar conquistando o mundo, ela pensa, em vez disso estou aqui, fatiando tomate para fazer um sanduíche vagabundo que me mate a fome. o mundo é desigual e bruto, os talentos se revelam logo ou demoram demais, só a noite é constante e escura, um segredo bem guardado.

 

o que se sabe a respeito

foto | nick gerber
foto | nick gerber

 

 

no mais íntimo, onde a razão não racionaliza mais, ele sabia o de que era feito: amálgama de uma liga fraca, pouco propensa a atos de heroísmo. não havia o que fazer, nem circunstância que lhe alterasse os elementos primordiais que lhe constituíam a tabela periódica pessoal. manteve a cabeça abaixo da linha do radar e virou-se como pôde. ninguém desconfiou jamais — ou a dúvida, se houve, não foi externalizada — e ele manteve a percepção sempre para si mesmo, no mais íntimo, lá onde a razão. foi um sucesso em fracassar.