Sono e guerra

paraquedistas

 

 

Pensar que passarei um terço da vida mergulhado em sono e sonho. Me faz pensar em escrever um Manual beligerante do ser humano, que explicaria o talento incontornável para a guerra (inclusive a de mentira que são as disputas esportivas: a guerra diplomática da civilização). Sono e guerra, duas faces da atividade inquieta que define o humano. E multiplicar-se pela fornicação, outra tarefa definidora, mesmo quando banhada de civilização e atenda pelo nome de amor. Na falta de perspectiva que a solidão oferece, escolhe-se superar uns aos outros, em disputa eterna. Acontece que o plano tem problemas de fundo, nunca devidamente resolvidos.

 

fábulas rabelaisianas

foto | sverrir thorolfsson
foto | sverrir thorolfsson

 

 

ler gargântua e pantagruel é submeter-se a provocações mentais sem fim. um brinde eterno à françois rabelais. de modo que a sequência de narrativas que se seguem são inspirações desse protorromance fundamental.

 

1.

era preciso lhe lançar uma escada ou corda, para que saísse do buraco em que havia se metido. pode ser, disse, mas também me contento se for um livro bom e uma lanterna.

 

2.

melhor ser cornudo do que ser solteiro, comentou o diabo, cheio de maledicência.

 

3.

mudo de inveja, sagaz feito lince, plantou duas piruetas e suplantou o oponente, que nem era dado a invejas nem tinha sagacidades.

 

4.

para o diabo que te carregue, vociferou. mas, feitiço que vira, foi a ele que o diabo veio buscar.

 

5.

ele tinha frio, um palito de fósforo e um pergaminho que jamais traduziria e que o aqueceu muito bem, impedindo que qualquer outro pudesse tentar a tradução.

 

6.

sou míope de um olho só, ele comentou. e o outro?, ela quis saber. é tão bom quanto meu coração, ele disse. depois do enfarte fulminante, ela soube que ele estivera mentindo.

 

7.

bela, essa vitória dedico a ti, ele disse, pondo-se de joelhos diante dela. depois lhe invadiu a cidade, matou-lhe os parentes, amigos e conhecidos e reclamou para si direito sobre a mão dela —- embora não tivesse mais a quem pedir.

 

8.

biltres, com voz rouca ele disse a todos, que eram conhecidos. o olhar fulminante. sobre o palco, os amigos perdoam esses xingamentos de araque, eles que também estão no elenco.

 

9.

em março tudo acaba, ela suspirou. aquele seria um abril como previsto no poema de t. s. eliot, o mais cruel dos meses.

 

10.

ergam seus copos, ele proclamou, pois perdemos a batalha e parte da honra, mas mantivemos a vida e precisamos beber hoje e descansar e amanhã teremos forças para novas batalhas, pois na vida há que ter esperança sempre, mesmo com a certeza de que o último inimigo já venceu.

 

11.

não declino meu nome, mas a vontade: quero seus lábios junto aos meus, nossas pernas duplicatas, o tempo pode suspender a contagem e a felicidade se lance sobre nós para nos cobrir.

 

12.

na dúvida se o sexo era divino ou invento da oposição, acenderam uma vela a deus e outra ao diabo. depois, aliviados e sem culpa, entregaram-se com volúpia aos prazeres do corpo.

 

13.

bebeu e desatou a língua. bebeu de novo e de novo e ela ficou tão bamba que não se podia mais entender o que era articulado em câmara lenta.

 

(p.s.: ali na 11 eu quis dizer duplicata, mesmo. faço o registro só para não restar dúvidas)

 

sabores da estação

pier

 

 

o mel escorrerá de entre as pernas das belas, e vinhos dos seios. parece que ele pretendia fazer um poema à moda antiga, inspirado pelos galões de cerveja que os amigos reuniram com o propósito inútil e agradável de celebrar a vida. depois de uns quantos goles, resolveu testar na prática a veracidade dos versos sugeridos e embora não fosse mel, agradou-se sobremaneira e mesmo assim com os sabores, renovados a cada estação.