Como emagrecer

 

cãozinho

 

 

Ele permaneceu em silêncio durante todo o voo, mergulhado nesse lado interior que o pensamento insiste em iluminar para que o sujeito volte a pensar mais uma vez a respeito de si mesmo, de limitações pessoais e possibilidades projetadas, como se tivesse sempre diante de si a balança da existência a medir as diferenças entre vantagens e atropelos. Quando buscou a mala na esteira e em seguida pediu ao motorista do táxi que o levasse ao hotel onde havia feito reserva, reteve durante um bom tempo a sensação de que chegara o corpo, mas algo faltava aterrissar, como se houvesse esquecido no avião (que ainda seguiria diversas rotas naquela noite) uma parte importante de si que não teria como recuperar de volta. A cada viagem, sentia ficar mais econômico e magro, como se deixasse pelo caminho o que não era mais necessário carregar. Haveria tempo em que nem mesmo carregaria mala.

 

Se tiver de ser assim 2

Arte | Eric Lacombe
Arte | Eric Lacombe

 

 

Mesmo que eu quisesse dizer tudo — mas entenda: não quero — mesmo que soubesse como abrir o bico e dizer tudo o que me vai pelo lado de dentro as coisas sairiam atropeladas e sem sentido e seríamos obrigados a desistir eu de falar você de ouvir — forçados a concluir o óbvio: palavras não conseguem dizer não têm as nuances para esclarecer as emoções. Palavras são pragmáticas demais funcionais demais comunicação de superfície: a vida é o que está embaixo no subsolo das palavras. Seria preciso um dicionário das emoções estou convencido. Mas quá seria também ineficaz. Não sei como resolver simplesmente não sei. Nada mais para dizer a memória acaba de me levar para uma tarde na infância em que chovia e eu observava a água bater no vidro da janela a temperatura caía eu triste melancólico e feliz com a melancolia porque era minha e autêntica e emoção: pelo menos eu a tinha naquela época. A chuva no vidro mas agora do carro enquanto sou levado para casa escorregando rumo a um sono reconfortante o sono da melancolia reconfortante. Posso descansar a vida tem atrativos. Talvez eu não fosse feliz ainda mas sentia que estava ali ao alcance da mão. Precisa de coragem ou de medo? Ainda não sei dizer. Todas as coisas que devo esconder todas as emoções que não sei expressar todos os silêncios quando nem eu nem quem estivesse comigo tínhamos o que dizer aquele hiato difícil aquele vazio que poderia ser atravessado por uma galáxia escura. A vida é triste. Mas às vezes é engraçada. Um monte de coisas de uma só vez ou em sucessão. Um pensamento que vai e volta uma borboleta no jardim iluminada pelo sol brilhante de depois da chuva.

 

O ar que respiro

Foto | Aernout Overbeeke
Foto | Aernout Overbeeke

 

 

A algaravia, o ruído que preciso fazer, então me dou conta, existem para tentar de algum modo abafar o meu silêncio, porque nele tenho mais volume de autoconsciência e quando começo a me perguntar a respeito do sentido dessa autoconsciência, percebo que o mecanismo está ameaçado, que ele coloca em xeque tudo aquilo que é o meu limite da definição. Qual é mesmo o sentido de tudo isso? Essa experiência de estar vivo, inspirar e expirar, saber que um dia estarei morto e fingir que isso não me afeta, pensar e considerar, ponderar, sentir alegrias e tristezas e não saber com honestidade o que se sobressairia se colocasse uma de cada lado da balança. Começo a pensar paranoicamente que deveriam colocar soníferos no oxigênio dos aviões, que a leveza das ideias não corresponde necessariamente à pureza do ar, que as ideias estão um tanto aéreas e desencontradas, que a loucura tem formas perfeitamente normais e simpáticas de se manifestar, que a essa altura do campeonato minha personalidade não vai mais se alterar muito (mas meu caráter sempre pode manifestar uma face mais sórdida sem que minha consciência se altere muito por isso). A vida, de novo eu sei, mas isso pouco importa no fim das contas, não faz o menor sentido. Não é fascinante?, eu me interrogo, mas sei que estou sendo farsante, porque isso não traduz o que de fato me define: a certeza de que não tenho um grande lugar de destaque no mundo e o fato de que isso afinal me incomoda.

 

cartografia do latido

espaços

 

 

a voz de alguém que fala mais alto do que devia sobe pela varanda, pula a grade e me entra pelo ouvido como um ladrão. não distingo o que é dito, apenas a voz, a entonação alterada. um cão também puxa um discurso incompreensível, cheio de réplicas dos cães vizinhos. o que comunicam uns aos outros tão excitadamente não se sabe ainda, talvez apenas postulados de manutenção territorial. esse é meu carnaval de semi silêncios, mezzo barulhos. tento avançar na leitura do romance, enquanto a consciência dá pulos meio bestas e insiste numa velha marchinha, lança confete, sorri cheia de sedução, saracoteia. minha consciência, concluo, não vale um níquel, por sorte ainda estou no controle e meus pés e a barriga continuam a se recusar qualquer movimento.

 

lado de dentro do avesso

foto | fanis pavlopoulos
foto | fanis pavlopoulos

 

 

ele caminhou lentamente até a porta do próprio pensamento. é ali que eu estou, tentou projetar a si mesmo para fora, embora soubesse que pensava a partir do conceito que tinha de mente e a projeção era falsa como certas tentativas de viver artificialmente. melhor o silêncio, pensou também, embora sua mente tivesse produzido o ruído do pensamento (as palavras em conexão) e portanto se contradizia. havia uma mulher, beijos trocados, havia saliva e suores, havia o passado e a lembrança no presente dele, havia outras gentes e muito ruído, formas, lugares bonitos, outros horrorosos, havia confusão, guerras sem fim, gente que explodia e enterros, gente que nascia e festas, eleições, promessas, sussurros, ordens e contraordens, havia o ruído infindável do mundo e sua mente perturbada a perceber tudo. estava vivo. para muitos, um consolo. outros encarariam como fardo. para ele, sério, era erguer a cabeça e ser estoico. o mundo era um barulho em sucessão, como as ondas do mar, trabalhadoras incansáveis. numa história de ficção, o mar pararia o movimento. melhor escovar os dentes antes de dormir.

 

de onde vem

foto | mario cravo neto
foto | mario cravo neto

 

 

ela achava que o amor era uma decisão que se toma, parecido com escolher o legume a ser comprado para o almoço. dizia, naquela voz chorosa: “por que você não me ama?”. ele um abismo de silêncios sem eco. entre ambos, a expansão da matéria escura, dos desacertos existenciais, do descompasso cujo desenho é feito à mão livre. “quando precisa de palavras”, ele disse, cansado feito um velho sábio, “o amor não está mais lá”. que servisse de lição para ela, mas nada a abalava. as mulheres, ele suspirou, têm uma determinação e uma persistência insuportáveis. e têm o péssimo hábito de achar que o amor organiza.

 

‘nsônia

panda-encarcerado

 

 

mareado pela contramaré líquida do sono, depois de bater cabeça vacilante em resistência, ele se viu de olhos arregalados para a madrugada, mil planos assassinos na cabeça e a fúria de um titã em miniatura de plástico como motor para colocar em prática. a noite e seus silêncios é propícia para fomentar os barulhos internos, despertar os pequenos demônios da inquietação, capazes de fazer as mais estapafúrdias reuniões para complicar o problema do mundo inteiro, antes de dissolver os planos em ácido sulfúrico no último momento da madrugada, quando as esperanças e planos se convertem em sombras, melancolia e cansaço.

 

a boca um túmulo

fachada-de-carro

 

 

fala, arnaldo, por que você não fala? eu aqui botando o meu coração para fora, sempre fui essa mulher que não para de falar dos próprios sentimentos, te entrego todas as vezes o que sinto, minhas emoções e você aí, mudo, estático, como sempre. um dia a gente se cansa, você sabia?, desse silêncio todo. eu sei que toda vez repito esse meu discurso, digo que vou me cansar e estou com você tem quanto tempo?, quinze anos, né, próximo mês. mas cansei, sabia, cansei desse seu silêncio profundo, de ser ignorada, tratada como sei lá o quê, mulher-objeto, objeto sem mulher, cansei, caralho. você pelo menos sorria para mim no começo e era tão bonito que eu podia passar por cima desse seu silêncio, mas ele cresceu tanto esse tempo todo que parece que tem mais alguém na sala junto com a gente, sabia? e além disso o tempo fez um estrago nesse seu rosto e nem bonito você é agora. me incomoda, não suporto mais, é só a minha voz e até dela eu estou me cansando. eu sei que hoje é particularmente difícil para você falar, mas agora que nossa situação mudou tão radicalmente você podia para variar me surpreender e dizer alguma coisa, em vez de ficar olhando para cima, com esse olho aberto. fala agora, desgraçado, abre o bico, põe para fora o que você sempre escondeu aí dentro do peito. foi para isso que eu abri ele, para ver se agora você fala. não vai dizer nada, arnaldo?