Transplante de solidão

Arte | Kent Williams
Arte | Kent Williams

 

 

O homem está sozinho, a não ser pela passagem aérea que tem na mão direita. Não que ela seja ou lhe faça companhia, mas tem o mapa de possibilidades de novas companhias, lá nesse país para o qual se dirige. Os islandeses devem ser frios, mais de um amigo comentou, quando ele disse para onde estava indo pelos próximos quatro meses. Mas há vulcões por lá, portanto eles não devem ser assim tão frios, respondeu todas as vezes. Um fogo intenso arde por baixo da aparência de frio. Um país pequeno, uma ilha esquecida próxima ao Polo Norte, deve ser perfeito para se esconder, para se retirar da agitação cada vez mais ruidosa e desnecessária do mundo. O homem se lembra das fotografias de casas coloridas — paredes vermelhas, amarelas, azuis, telhados roxos, cinzas, verdes, como se alguém tivesse resolvido fazer uma cidade a partir de desenhos de crianças como modelo —, da cena em que, num filme, um sujeito desliza de skate por uma estrada no meio de montanhas muito verdes e belas, lembra do vulcão de nome impronunciável, da ideia de experimentar o contraste entre o aconchego do interior de uma casa e o frio enregelado lá fora. Não, teve que responder para vários amigos, não serei vizinho da Björk, vou estudar a literatura de Halldór Laxness. Quatro meses e um mergulho numa nova forma, especial, mais densa, ele espera, de solidão. O táxi buzina lá fora. O homem ergue a mala, confere mais uma vez a passagem na mão para ter certeza de que não se trata de um sonho e abre a porta para sair.

 

Manual de sobrevivência do homem solitário

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Foi acometido por sensação de abandono quando o ônibus se aproximou do aeroporto. Era sozinho no mundo, viajar aguçava um tipo especial de desesperança, era agravante daquela condição de desterro. Os parentes cuidavam das próprias vidas, os amigos tinham se afastado sem que fizesse qualquer movimento para impedi-los, a ex-mulher não falava com ele há séculos. Estava isolado no ambiente de trabalho e, ainda por cima, havia essa rotina de muitas viagens, aeroportos impessoais, a vocação das grandes cidades em que os atendentes te tratavam de modo cortês e impessoal. Sentia saudade de ser humano, de ter algum tipo de vínculo que lhe lembrasse dessa condição, queria encontrar alguém com cartaz de abraços gratuitos na mão, mas que significasse algo além de simples desempenho. Imaginou a voz sobreposta de um narrador de documentário científico a lhe descrever: este é um dos últimos espécimes do humano solitário, forçado ao isolamento emocional mesmo em meio a tantos bilhões de seres da mesma espécie com os quais poderia interagir, se soubesse como se faz, e sem noção precisa de como se acasalar novamente. Ele poderia, a depender do tempo de espera antes do embarque, iniciar a escrita de um tratado, Manual de sobrevivência do homem solitário. Numa loja de conveniência do aeroporto que tinha seção de livraria e papelaria comprou bloco pautado e caneta por preços abusivos. Sentou-se à mesa de um café, depois de pagar no caixa por um expresso e receber um número para deixar sobre a mesa até que uma atendente, cortês e impessoal, pudesse localizá-lo e trocar a xícara pelo número. Então começou a produzir anotações de um livro que poderia ser sucesso de vendas ou fracasso absoluto, ainda era cedo para dizer qual. Mas pelo menos, ao começar a escrita, sentiu um pouco de alívio, mesmo que soubesse que seria temporário, se pensasse bem.

 

Um sujeito do seu tempo

Foto | Aernout Overbee
Foto | Aernout Overbee

 

 

O homem não podia fornecer a ninguém o endereço. Vivia entre um hotel e outro, a cada noite uma cama diferente. Era como se fizesse uma brincadeira perversa de esconde-esconde com a vida. Tinha essa profissão estranha, de alimentar com informações um blog a respeito das condições de hotéis na cidade em que vivia, uma grande metrópole. Os turistas adoravam consultar suas dicas antes de tomarem decisões a respeito de onde permanecer e os altos índices de frequência de sua página virtual despertaram a atenção dos responsáveis pelos setores de divulgação das redes hoteleiras, de modo que ele passou a receber cada vez mais convites para visitar tais e tais outras instalações, sem que qualquer taxa lhe fosse cobrada. O sujeito, portanto, tinha teto sobre a cabeça e cama macia todos os dias do ano, o que lhe eximia de pagar aluguel, condomínio, água, luz, alimentação etc. Por outro lado, para não parecer que se trata do emprego dos sonhos, vivia solitário e ressentia de não poder convidar amigos a visitá-lo, servir um café, preparar um almoço. A particularidade da profissão sugeria que não tirasse férias, a não ser que pudesse bancar o aluguel de alguma casa (não faria sentido ficar hospedado num hotel ou pousada durante as férias) e passar um mês todo lá. Chegou a tentar isso, na metade do terceiro ano do negócio, mas uma semana foi o suficiente para perceber que não conseguia ficar quieto no mesmo lugar: causava uma terrível sensação de estar afundando num pântano, como se fosse um tubarão que tivesse finalmente caído em sono profundo. Voltou à rotina de movimentação perpétua, aonde quer que chegue é bem recebido e em todo hotel que frequenta faz questão de cumprimentar a todos erguendo o chapéu acima da cabeça, o único gesto arcaico que se permite.

 

a vida não é fácil, nina

foto | alfred wertheimer
foto | alfred wertheimer

 

 

mesmo tendo sido agraciada com um tipo privilegiado de voz, rascante, que até hoje pode ser escutada e provoca efeitos inesperados, a imagem que resta de nina simone é a de uma mulher grave que dificilmente sorri. por exemplo, outro dia me deparei com a série de fotos tiradas por alfred wertheimer em dezembro de 1964, geralmente nos bastidores das apresentações — do que vi, apenas uma foto a mostrava no palco, sentada junto ao piano, num teatro ou sala de espetáculos que parece sensacional, ela de costas. o semblante está sempre sério, sóbrio, eu diria mesmo que melancólico e vendo as fotos me dá vontade de poder dizer a ela, vem, descansa um pouco sua cabeça no meu ombro e me diz se tem algo que eu possa fazer para te alegrar. afinal, com essa sua voz, eu diria também, você devia estar bem feliz. talvez ela sorrisse. na minha imaginação é o que ela faz.

 

o que não sabem

foto | xan latta
foto | xan latta

 

 

morto por causas desconhecidas, dizia o relatório. o fato é que legistas não capazes de identificar quando alguém morre de tristeza, solidão ou por amor, então ficam esses relatórios estúpidos de admissão de incompetência. mas para mim não havia mistério a respeito dos motivos pelos quais ela estava morta.

 

amargo

foto | robert herman
foto | robert herman

 

 

“dosando suavemente o nada para não se machucar”

julio cortázar — o jogo da amarelinha

 

visitava os amigos cada vez menos. caminhava pelas tardes vazias sempre um pouco mais. o mate e o café seguiam iguais. lia cada vez menos jornais, cada vez mais poesia. havia aprendido um método para separar os poetas excelentes — raríssimos — dos medíocres, mais nocivos que pragas de gafanhoto e persistentes como as estações do ano. não se importava que cada vez menos as editoras se interessassem pela publicação dos poetas, os que tinha eram uma cota generosa e suficiente, além disso sempre se podia iniciar a releitura. produziu uma importante série de ensaios dedicada ao tema da solidão, que quase não tinha quem a defendesse. os homens são barulhentos e gregários, por hábito, cultura e tradição, ele sabia. de onde a necessidade de novos paradigmas. tinha consciência de que, quando morresse e o corpo fosse encontrado em estado avançado de putrefação, depois que os vizinhos convocassem os bombeiros por conta do mau cheiro, os manuscritos seriam descartados, bem como o resto de suas coisas parcas. pensando bem era mesmo o melhor caminho. portanto escreveu com liberdade e gosto.