Modelos de narrativa

Foto | Jose Diniz
Foto | Jose Diniz

 

 

O homem saiu da neblina como se estivesse nadando peito: cortava o ar branco a sua frente com as mãos unidas e o punha para trás pelas laterais do corpo, enquanto as pernas se dobravam e depois se estendiam, para empurrar. Pensei: estou sonhando, só posso estar sonhando. Mas minha consciência, essa infame, me desmentia, eu estava acordado. Então louco, talvez?, ponderei. E esse modelo de racionalidade talvez confirmasse a loucura. O homem se aproximou e ao passar ao meu lado, virou o rosto para mim e disse:

— Talvez você esteja numa narrativa surrealista.

Devo dizer que aquilo, ao esclarecer a situação, me tranquilizou muito.

 

Bifurcações da vida

autopistas

 

 

O custo de vida subiu na mesma proporção da minha desconfiança de que aquele mês não chegaria ao fim tão bem — algo mais grave que o preço das coisas se fazia anunciar em meio à invisibilidade. Em mais de uma situação, os pelos de minha nuca se arrepiaram, mas daquela vez o arrepio tinha outra classe de emoção impregnada. Quando deixei a pequena cidade interiorana e mergulhei no nevoeiro com meu carro, tive a impressão nítida de que mergulhava num sonho ou num pesadelo (naquele momento não conseguia ainda ter certeza) e nem ter aumentado o volume da música no painel do carro me tranquilizou. Até hoje não estou bem certo se minha vida continuou do ponto onde havia parado antes ou se naquela bifurcação eu entrei no reino dos sonhos e continuo nele até o momento em que transcrevo isto, enquanto aguardo o dia em que finalmente me será dado despertar de maneira definitiva.

 

um sonho, depois o real

foto | mario cravo neto
foto | mario cravo neto

 

 

o sonho foi intenso e deixou uma sensação estranha de que tinha conseguido se impregnar na vida “real”. claro, eu sabia, sempre soube, o real é apenas delírio da minha cabeça aliado à sensação de durabilidade, de persistência, sobretudo por conta da força brutal da memória, esse mamute que todo homem é obrigado a arrastar atrás de si pela vida afora. não tive mais dúvida quando o monstro do meu sonho se materializou em batidas à porta e um convite se seguiu, para a próxima viagem. sabia o abismo escuro em que aquilo terminava, o sonho tinha sido bem claro a respeito, e portanto não me restou alternativa a não ser dizer que sim, eu embarcaria.

 

clodoaldo

mergulho

 

 

renunciar a escrever, ele anunciou. zero de impacto. quer dizer, dona dolores, a mulher que usava bobes — bobes! — no cabelo e lhe servia um prato mais ou menos morno no jantar, ela resmungou algo. mas deve ter sido: quer o jantar agora ou mais tarde? e não: oh, que pena, não faça isso. clodoaldo, o dono da renúncia, mora num país encalacrado na cabeça, bem diferente daquele em que divide a cama a velhice as dores as dívidas com dolores e o banheiro com os bobes. o paraíso é a raspadinha que dá prêmio instantâneo. inferno é prestação.