Sono e guerra

paraquedistas

 

 

Pensar que passarei um terço da vida mergulhado em sono e sonho. Me faz pensar em escrever um Manual beligerante do ser humano, que explicaria o talento incontornável para a guerra (inclusive a de mentira que são as disputas esportivas: a guerra diplomática da civilização). Sono e guerra, duas faces da atividade inquieta que define o humano. E multiplicar-se pela fornicação, outra tarefa definidora, mesmo quando banhada de civilização e atenda pelo nome de amor. Na falta de perspectiva que a solidão oferece, escolhe-se superar uns aos outros, em disputa eterna. Acontece que o plano tem problemas de fundo, nunca devidamente resolvidos.

 

sono interrompido

coqueiro

 

 

quando alguém me liga no meio da tarde e estou dormindo, não sei dizer qual é o motivo pelo qual sempre tenho essa reação instintiva de me proteger com uma mentira. a primeira reação, enquanto o olho ajusta o foco e procura identificar o autor da ligação, é pigarrear uma ou duas vezes para limpar a voz da rouquidão, antes de atender. sou culpado, penso com a voz interna, enquanto a externa eleva o tom duas oitavas para dar a impressão jovial de que interrompi os exercícios de dança ou esgrima e, ainda inebriado da alegria que essas atividades certamente me provocariam caso decidisse praticá-las, digo: “alô”. mas quando do outro lado uma voz que também força jovialidade e procura me vender um plano de assinatura de televisão imperdível (com essa palavra ela me perde), descubro mais um motivo exterior para responder a minha depressão com esse sono infindável que me joga na cama a qualquer hora do dia ou da noite.