É relativamente simples

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Você caminha sobre a superfície da terra e vamos dizer que se chama João ou Roberta. Há lojas nas quais pode entrar e, ao passar pelas calçadas, ergue os olhos para os prédios altos e além, para o céu azul ou pintado com nuvens cinzas e ameaçadoras. E então você desce para o metrô. Usa as escadas ou, em geral e a depender da preguiça, escadas-rolantes. Lança o bilhete na reentrância da catraca e vê a seta verde no visor, indicando que a entrada foi liberada. Aparece outro nível de descida, novamente escada e escada-rolante. Eis que surge a plataforma, com aparência de bem ou mal cuidada, a depender da cidade, o mapa das linhas bem grande numa das paredes e a confusão das cores, sobretudo o grafite de fuligem das paredes do outro lado e depois o prata envelhecido do trem, quando ele chegar. Você entra junto com outras pessoas e, se for hora de baixo movimento, é possível que dê sorte de encontrar cadeira para se sentar. Nas descidas e viradas para lá e para cá seu senso de orientação foi afetado e você não consegue mais saber exatamente para que lado está indo. Mas se entrou no vagão certo chegará ao destino desejado. O trem parece um comprimido, cápsula ampliada. Você seria, nessa situação, os grãozinhos que as cápsulas de medicamento contém, o que não deixa de ser um pensamento otimista, porque talvez você seja a cura da doença que aflige algum sistema, algum corpo gigantesco do tamanho da cidade. Ali dentro do trem, no entanto, você não consegue ter essa perspectiva a respeito da própria vida. Seus pensamentos se dispersam pelos mais variados assuntos, quase todos sobre a natureza dos seus conflitos existenciais. O chacoalhar contínuo, o ritmo levemente trepidante mas também macio, tudo te distrai e ao mesmo tempo solicita sua atenção: é preciso ficar alerta para não passar do seu ponto. Talvez algum passageiro te faça perder parte da concentração, pelo aspecto, pela beleza ou justamente a ausência enfática dela, ou simplesmente porque tem dois fios dependurados ao lado da cabeça, a partir dos ouvidos. Qual a trilha sonora que aquele indivíduo escolheu para o mergulho nos subterrâneos é talvez informação que você nunca vai deter. Com o aproximar da estação desejada, os níveis de alerta do seu sistema se elevam e você começa a desenhar cenários, pensando em quantos saltarão também e para aonde estarão se dirigindo e com que propósitos. Reunidos naquele cubículo em movimento, se dispersarão assim que as portas se abrirem. O movimento para sair se inicia, é rápido e eficaz. Em questão de segundos, soará o apito que vai indicar o fechamento das portas e em seguida o reinício do movimento do trem. Vocês que desceram se dirigem à saída, às escadas para cima, às curvas e novamente catracas e novamente mais escadas. Há uma nuvem de ansiedade fingidamente controlada no ambiente. As últimas escadas e, pronto, você está de volta à superfície, em outro local da cidade. Desceu e agora subiu, uma metáfora do vai e vem da própria vida. Talvez seja bom lançar um olhar em volta, garantir que as lojas continuam ali, ao rés do chão. Mas depois será bom olhar para cima, para os prédios altos, se houver, e para além, as nuvens cinzas ou o céu azul. A viagem é bem mais longa do que você supunha. Está apenas começando.

[primeira de uma série de histórias com um tema em comum: viagens pelo metrô. O livro chama-se Subterrâneos e é inédito]