Manter coerência

Imagem | Elena Arcangeli
Imagem | Elena Arcangeli

 

 

A ele sucedeu de escrever várias histórias — dois romances, cinco novelas, vinte e nove contos — cujo tema era o suicídio. No começo, os amigos se preocupavam. Não vá você imitar os personagens, advertiam. Ele ria, não se preocupem, replicava, não pretendo. Mas enquanto os amigos seguiram a recomendação e pararam de pensar no assunto, a crítica por sua vez não lhe poupou a redundância temática, a reiteração obsessiva, o excesso de “leitura focada”, que foi como traduziram a expressão para indicar uma vertente teórica de abordagem literária. Há limites para as obsessões, escreveu um deles, numa revista muito conhecida. No bilhete de despedida, que os jornais publicaram com grande estardalhaço, ele menciona a questão de manter a coerência, mas muita gente achou que ele queria somente atrair a atenção para a obra, que andava caindo em esquecimento.

 

Crises, síndromes e que tais

Foto | Burt Glinn
Foto | Burt Glinn

 

 

A taxa de desvalorização da memória a partir de certa idade é sempre mais acentuada do que a valorização do dólar. Grandes buracos, feito queijo, que nunca serão preenchidos. Há a lembrança encardida de uma emoção, o traço do sorriso dela que permaneceu como a farpa de um lembrete da minha finitude iminente. Você ainda está novo para pensar nessas coisas, mais de um amigo me advertiu. Isso é apenas sintoma da crise de meia idade. E tentam me dar um tapinha condescendente nas costas, mas me esquivo. Crise de meia idade é o cacete. Ninguém sabe com que idade vai morrer, que porra é essa de estabelecer marco regulatório que determina um meio do caminho para te liberar para começar a ter surtos? Vociferei para todos eles e ainda precisaria de muito tempo para entender que essas explosões, esses destemperos também eram parte do surto, da crise ou lá que nome queiram dar. Por mim, podiam chamar de Síndrome do Homem Falível. A compreensão da mortalidade se torna um soco na cara a cada manhã gloriosa. A ruga a mais no canto do olho, o fio extra de cabelo branco. Até aqui você pôde se dar o luxo de cometer equívocos, doravante tentará se comportar com retidão, como âncora existencial para os demais. Eu achava que âncoras existenciais eram os filhos, eles te impedem quase sempre de fazer as grandes asneiras. Te restam as pequenas, as desimportantes. E ali estava eu, a arma no criado-mudo a me acenar, as lembranças do traço do sorriso dela e o calor interno que aquela imagem ainda me provocava, a meia idade rosnando e exibindo seus caninos para mim. Eu precisava decidir.

 

Profissão difícil

Foto | Gunars Binde
Foto | Gunars Binde

 

 

A dúvida é o que me mata. Se tivesse certezas e precisasse lidar apenas com elas seria tão mais fácil. A vida se tornaria um ângulo reto, encaixes e ajustes perfeitos. Em vez disso, tenho dúvidas, desgostos, círculos que não fecham, muito espaço tracejado. Margarete está me traindo, penso durante o café da manhã. Imagino que possa ser com Hércules, meu sócio, ou com Tânia, a dúvida não me deixa decidir e tento encontrar resposta em seus olhos, mas ela dissimula e foge. Quando Margarete se levanta da mesa e me dá um beijo de despedida, fico na dúvida se ela realmente me trai, se contrato um detetive para resolver o assunto, se me importo no fundo com isso, se abandono minhas amantes, Lurdes e Malva, para reconduzir Margarete à retidão do casamento e honrar o contrato de fidelidade que fizemos diante do padre e de nossas famílias. As dúvidas se multiplicam ao longo do dia de maneira realmente fascinante, em intermináveis bifurcações, mas encerro o dia cansado com tantas variáveis e o travamento geral que elas me provocam. Simplesmente não consigo decidir. A última do dia é a dúvida que sempre retorna como se fosse o fantasma de um filme ruim: devo ir para a cama e dormir ou cometo suicídio de uma vez por todas. Pelo menos, essa é uma dúvida que o dia seguinte responde por mim, sempre que desperto para enfrentar nova leva de conflitos e verifico que ainda não tive coragem suficiente para tomar a outra decisão.

 

Decisões irrevogáveis

biblioteca-de-vazios

 

 

O primeiro que vimos foi a cabeça dependurada para fora. Sopesar uma decisão, não ter com quem compartilhar, a vida uma sucessão de escolhas, algumas felizes, muitas amargas, o sal da terra nem sempre o melhor dos temperos. O corpo dependurado junto com a cabeça, mas ao mesmo tempo separado dela — unidos pela mesma situação, mas sem formar um só corpo. O primeiro que vimos denunciava uma violência arbitrária demais, no entanto soubemos mais tarde que se tratava de suicídio e o impacto nos foi ainda maior, porque os suicidas geralmente são uns mortos discretos, aquela era uma maneira berrante demais, escandalosa e abusiva, impactante. Conversamos muito a respeito do modo como aquilo nos afetava, a opção pela morte que nos comovia e inspirava. Dos cinco amigos que estávamos presentes, quatro tomaram as devidas providências no rigoroso prazo que nos estipulamos, de um ano. Falta apenas eu, para passar em revista nossa trajetória, saudar os que se foram, providenciar os últimos arranjos, apagar a luz, como se diz, e escrever o meu bilhete de despedida, que já vai se fazendo muito longo.

 

Aquela noite em especial

Foto | Jo Jankowski
Foto | Jo Jankowski

 

 

Venha o que vier, ela disse, sentando-se para ouvir as músicas — Kovacs cantando My Love, sorumbática e tristemente; Koop em Koop Island Blues, essas coisas — e fumar um último cigarro aquela noite, em especial porque estava se despedindo dos cigarros e talvez da vida em geral. Talvez, eu digo isso como alguém sem o devido envolvimento, se ela não tivesse escutado em seguida outra dessas canções que fazem as pessoas mergulharem muitos e muitos metros abaixo da linha do aceitável em si mesmas, nas profundezas onde você não consegue mais distinguir o que é água, o que é lodo, talvez, e apenas talvez, porque não se pode ter certeza, ela tivesse se salvado. Claro, não se pode ter certeza de muita coisa, porque o conceito de se salvar parte do pressuposto de que a vida é interessante e vale a pena e o que ela fez foi afinal se salvar, pulando fora. Perspectivas, eu digo. O fato é que ela inalou o cigarro, exalou o ar branco dos pulmões infiltrados fechando os lábios em torno de um “o” para deixar a passagem da fumaça e se não tivesse cometido o gesto extremo é sempre possível imaginar que o câncer teria feito o trabalho por ela, de maneira lenta e dolorosa, afetando também a vida de parentes e amigos que estariam próximos para acompanhar, com lamentos e um tipo mórbido de interesse, o desenrolar dos acontecimentos. Seja como for, venha o que vier, as expressões redundantes, que nada dizem ou acrescentam, e que também não podem deixar de existir de uma só vez, porque são necessárias para marcar o quanto há de redundância e repetição na vida (os ponteiros do relógio girando em círculos, enquanto o tempo avança). Eu sentiria saudade dela, disso tenho certeza, sua expressão distante, algumas palavras que trocamos, o que ela me disse e que mudou o modo como percebo a vida e as coisas ao meu redor de maneira profunda. Falávamos da vida do romance e ela me disse, assim do nada, que o romance é o anarquismo da rebelião, com essas palavras exatamente, “o anarquismo da rebelião” e pensei longamente a respeito do assunto (do tipo: no meio da rebelião você decide que não quer mais ser rebelde e recua ou avança profundamente) e concluí, se é mesmo que a entendi bem, que ela estava certa, o que não a tornava menos depressiva ou distante ou já meio fora desse mundo. É perigoso estar vivo, porque sempre se está a um passo de não se estar mais. Fora isso, o sol brilha lá fora, ou a lua, não sei muito bem, estou a vários dias preso aqui e nem sei direito o que aconteceu com ela, se anda fumando cigarros, se cumpriu a velha promessa várias vezes adiada, ou se o vício da tristeza a manteve por alguns dias extras por aqui e em breve talvez vamos nos encontrar novamente. Ela teve sua cota dos contratempos de sempre: família indiferente, expulsa de colégios, rebeldia a toda prova, quebra de quartos de hotel, um acúmulo de crises e persistência, algumas dúvidas não de todo com solução, graus de conformidade, enfim, o pacote humano de todo dia, mas almas sensíveis têm uma maneira de estar no mundo de tal forma que as fragilidades parecem pesar bem mais do que as cinco toneladas de praxe. Parecia enfeitiçada, nas últimas vezes que a vi, o olhar ainda completamente distante, sei lá em que distâncias. Tem uma hora, eu disse para mim mesmo, mas não para ela, e sobretudo não completei o raciocínio. Isso é importante, deixar várias coisas em aberto, não completar, não aceitar o convite para preencher as lacunas ou as linhas em branco. Por exemplo, esta história, ela vai assim e de repen

 

Consolações da literatura

entre-lençóis

 

 

Algumas feridas se curam, criam casca, depois as células fazem o trabalho de reposição e a pele fica como nova, num ou noutro caso resta uma cicatriz, a escrita do acidente sobre o corpo, um memorando para o futuro. Mas há certas feridas internas cujo sangramento não estanca, uma hemofilia de sentimentos insalubres. Nesses casos, as pessoas viram escritores. Como automedicação, fumam, bebem, se drogam e alguns colocam a cabeça no forno ou apertam o gatilho. Para os mau-sucedidos há um conforto: fazem sucesso e recebem prêmios, convites para palestras e mesas-redondas, têm leitores que os adoram, enfrentam fila na noite de autógrafos e tudo isso se parece também com um prêmio de consolação, porque a literatura de verdade está em outro lugar.

 

O esboço do herói

paraquedas

 

 

Nascido para grandezas, seu avô solenemente dizia, lançando-o numa trajetória de expectativas que os olhares da família confirmavam. A angústia do herói desconfortável na posição de atos que pressente não será capaz de executar. Por que me lançam esse fardo?, seu silêncio pergunta, mas os olhares de confirmação das expectativas apenas se renovam como os votos de fé na missa de domingo. O grande ato que se proclama solene enfim acontece: ele não acorda um dia e à parte os corações esfacelados do pai e sobretudo o da mãe, a família nunca mais é a mesma, marcada pelo suicídio da jovem promessa de um destino que foi distraído.

 

certos estudos importantes

farol

 

 

não se sabe até que ponto havia sido deliberado, mas o fato é que o sujeito fornecera uma bela explicação quando lhe perguntaram por que tinha decidido estudar filosofia. quero aprender a morrer, ele disse. havia lido algum filósofo clássico e retirara de lá a citação, deduziram os mais velhos. ou da leitura de michel de montaigne, que também menciona isso. mas quando ele cometeu suicídio, dois anos depois de ter iniciado os estudos do pensamento, verificaram que afinal ele tinha outras ideias bem diferentes em mente.

 

problemas burocráticos

ilustração | rebecca dautremer
ilustração | rebecca dautremer

 

 

o homem era notário mas ninguém o notava. estavam preocupados em observar o documento que ele produzia. mesmo quando suicidou, não notaram nem se surpreenderam —- os que fizeram comentários foi apenas para condenar o suicídio de modo geral. outro notário o substituiu e parece não ligar muito para o fato de que o problema de não ser notado persiste.

 

momento certo

crateras

 

 

dançou, bebeu, foi feliz naquela noite como não havia sido em qualquer outra. em sua companhia, estava aquela mulher maravilhosa dos sonhos, feliz, dançante, apaixonada por ele como ele mesmo estava, por ela. quando a noite estava chegando ao fim e depois de se deitar com ela — na terminologia romântica, fizeram amor —, voltou para casa a pé, caminhou pela areia da praia e depois pelas escarpas de um paredão de pedras que se erguia. quando encontraram o corpo, cinco dias mais tarde, falaram em acidente — teria pisado em falso, talvez. o que ninguém consegue admitir é a hipótese que traduz a verdade: escolheu o momento mais feliz, não o mais triste, não gostava do óbvio, para cometer suicídio.

 

sugestão inesperada

ilustração | michael borremans
ilustração | michael borremans

 

 

ele reclamou das dores, do excesso de remédios, dos efeitos colaterais. em seguida, como se fosse a conclusão óbvia para a sequência de queixas, reclamou dos rumos e sentido da existência em geral. ouvi, paciente, e vislumbrei bem antes para aonde aquele discurso lamuriento se encaminhava. ia me pedir dinheiro emprestado, como sempre. mas me antecipei e fiz uma sugestão inesperada. se está tudo ruim como você fala, eu disse, sério, por que você não se mata de uma vez, poupa a si de continuar essa vida de problemas e crises e a mim de ter que ouvir esse relato das mesmas queixas de sempre e ter depois que te emprestar mais dinheiro que você nunca pagará. antes que ele pudesse assimilar o impacto da proposta, me levantei, determinado a nunca mais voltar, se fosse para ouvir qualquer outra reclamação.

 

o que acham e o que é

ilustração | antonio segura donat
ilustração | antonio segura donat

 

 

que egoísta, disseram. não pensou na mulher e nos filhos, disseram. referiam-se ao fato de ele ter se enforcado, com sucesso. não sabem que no bilhete de despedida ele se dirige justamente à mulher e aos filhos, para lhes pedir perdão por não ter podido suportar a vida e o vazio que ela contém e para dizer que seu último pensamento, antes de morrer, seria dirigido a eles, à mulher e aos filhos, a quem deseja, como está no texto, que sejam bem sucedidos onde ele não tem as mínimas condições de ser.

 

rasura

foto | flip nicklen
foto | flip nicklen

 

 

ele sofria do mal de azar. é dizer, a sorte o tinha banido das visitas, relegando-lhe migalhas, bem poucas, que ele não chegou exatamente a entender como deveria apreciar. o destino, que alguns dizem que é moldável, virou-lhe as costas sistematicamente. mas o sujeito era persistente além da conta e se a regra geral determina que a banca sempre vence, fato é que ela em algum momento no meio do caminho é forçada a ceder — o diabo também aposta, afinal — e foi numa dessas que o sujeito, cujo sobrenome era malazarte, veja você, faturou alto. saía naquele momento do cassino com os dinheiros em duas sacolas recheadas quando foi atropelado e morreu. dizem as más línguas que o carro que o atropelou pertencia ao pessoal que trabalha para o dono do cassino, mas isso são maledicências, imagine se todo sujeito que ganhasse alguma coisa na roleta fosse atropelado ao deixar o estabelecimento?, não faz sentido. o que sei é que ele entrou no ambiente decidido a torrar o que lhe restava de dinheiro antes de dar o salto para a morte. o que imaginava era um voo da cobertura, não o arremesso para cima que o carro lhe concedeu. de qualquer modo, não sei dizer se isso entra na categoria de azar, nesse caso.

 

fábula

poderia criar um personagem, como na fábula de kafka, cuja prerrogativa fosse ter tanto desprezo pela vida humana que se torna assassino de aluguel. acontece que o desprezo não é simplesmente pelo outro, mas também por si mesmo, de modo que toda vez que ele comete um assassinato, em seguida suicida-se. mas no dia seguinte, como se fosse uma versão negra daquele filme com bill murray (groundhog day, feitiço do tempo em português), está vivo de novo e de novo disposto a matar alguém.