Memórias embaladas

Foto | José Diniz
Foto | José Diniz

 

 

Passou a noite acordado, cheirando carreira depois de carreira de cocaína e ingerindo uísque em quantidades que beiravam a overdose. Depois viria a rebatida, estava ciente, uma ressaca física e moral, a constipação das narinas, a mente encolhida ao essencial ou nem isso. Mas naquele momento, a cabeça a mil. Memórias, pensou. Conexões difusas se estabeleceram. Ter consciência da memória — usufruir dela — é ao mesmo tempo o que salva e a maldição: estar condenado às lembranças (o que fazer com elas? Emocionar-se toda que vez que acessá-las? Bá), saber, por memória, que do mesmo jeito que os antepassados morreram você também vai morrer um dia. Só não há, não pode haver, memória do amanhã. O acúmulo do passado é a ruína do presente, a lentidão cada vez mais intensa do rio que recusa a gravidade e se submete a ela com morosidade. Ele precisa dar jeito nesse monturo de ruínas, descartá-las, reciclá-las, sei lá o quê, mas dar jeito. Só não será com a aceleração do presente promovida pela combinação de cocaína e uísque. Mas talvez a essa conclusão ele não chegue, se a overdose vir antes e só — e apenas só — se for fatal.

 

Breve

gato-e-bolha

 

 

O que é breve tem qualidade extra no mundo. Sobretudo quando o sujeito começa a entender que a vida é persistente — impressão que aumenta bastante quanto mais idade se adquire, a ponto de virar obsessão — e portanto longa. Inevitável ser lembrado da frase com que Blaise Pascal encerrou uma carta certa vez: “E se escrevi essa carta tão longa foi porque não tive tempo de fazê-la curta”. Ganhar tempo significa aprender a encurtar. Um dia escrevi um aforismo para expressar isso: elegância é breve. O que me leva à triste conclusão: quanto mais envelheço, mais elegante me torno, necessariamente.

 

Tempo tempo tempo

Arte | Marc Chagall
Arte | Marc Chagall

 

 

Hoje é o tempo presente, sempre aqui, de forma avassaladora a me consumir por dentro, a me enviar memorandos para mim mesmo no futuro — quando então será o presente e minha memória terá consumido em chamas boa parte do meu passado. Os humanos estamos sempre equilibrando essas noções peculiares e estranhas do tempo tripartido, talvez por isso essa nossa eterna cara de insatisfação, esse desconforto visível com um monte de coisas pequenas para disfarçar essa outra, maior, devastadora e incontornável que virá, a última chamada da qual já se tem consciência agora.

 

Ninguém sabe

macaco

 

 

É preciso viver, insistem as pessoas, escrevem a respeito. Viva, é preciso viver!, argumentam, e é possível ouvir a exclamação na frase enunciada, no olho arregalado, no gesto entusiástico. Viver não tem fórmula, não tem regra, insistem, e em seguida recitam a fórmula, ensinam a regra que julgam ser a correta. Viva!, viva!, bradam, as mãos gesticulando para enfatizar a asserção. O tempo é curto, advertem, é preciso aproveitar o máximo. E então morrem, preocupados que estão em ensinar os outros a viver. A totalidade da vida nem parece mais tão cheia de substância e o fato terrível é que todas essas admoestações existem porque ninguém sabe de fato como é que se vive.

 

flutuações do pensamento

foto | matthias heirerich
foto | matthias heirerich

 

 

meus olhos caminhavam meio vagabundos pela sala, a poltrona, as estantes, o vaso de begônia que eu normalmente maltratava com pouca água, os quadros todos um pouco bêbados, se alguém tivesse o cuidado de reparar bem —- eu estava reparando, por sinal. o pensamento, no entanto, estava na sala e não estava, ia lá fora e longe, nova york, a chapada dos veadeiros, o atlântico sul em polvorosa no cabo das tormentas, o polo norte com grandes placas brancas de vastidão e opacidade, dinamarca, certas imagens de povos do interior da rússia em nada parecidas com as que a televisão e os jornais insistem em mostrar, das mesmas e velhas e conflituosas capitais, um anoraque. o pensamento também ia ao passado, em mergulhos súbitos e disparatados, depois ao futuro cheio de cores e possibilidades. a vida, eu me sussurrei, como se precisasse me convencer, essa minha mania de ser um outro que conversa comigo, é uma coisa bem interessante. pena que acabe tão rápido.

 

sincronia impossível

passagem

 

 

fazia grande esforço para viver sempre no presente, concentrando-se no que havia de bom no momento em que se encontrava e em se livrar dos problemas que porventura se apresentassem. mas bastava um pequeno deslize, um momento curto de falta de foco para se pegar ou projetando o futuro ou nostálgico com relação a algo que lhe havia ficado lá atrás. um grande insatisfeito, é isso que o homem é, dizia, no divã do analista, e a culpa é da consciência que ele tem do tempo, ao fracioná-lo em três partes. o analista balançava a cabeça, fingindo concordar, mas a verdade é que não estava em sua alçada compreender a verdadeira dimensão psicológica do problema do tempo, porque só conseguia pensar em termos de implicações relacionadas à vida cotidiana e social do cliente. queria tradução para termos mais pedestres. não posso tratar de um problema relacionado à noção de tempo, o analista reclamava, quando era ele no divã, com o mentor que precisava ter para manter a qualidade do trabalho. e portanto o tempo continuava a fazer o trabalho de desorientar os humanos, de modo geral e irrevogável.

 

distrações

ilustração | carel visser
ilustração | carel visser

 

 

pensando em matemática, ou seja, pensando no mundo não apenas nas três dimensões em que ele se apresenta, mas em quatro, cinco ou mais, aquele geômetra distraído acabou por cair num buraco. não se preocupou tanto com o fato (fatos são a ficção da realidade, concluiu um ou dois raciocínios mais tarde) e continuou a fazer cálculos e contas, ponderar a respeito de conjecturas e desenvolver teses. quando se deu conta de que era preciso pedir socorro, era tarde e ele foi obrigado a passar duas noites sem comer, até que o acaso, que desdenha da matemática, colocou-lhe um rapaz no caminho e ele pôde sair do buraco. precisou ser reidratado antes de retomar o fio dos cálculos do ponto onde havia interrompido e lamentou por esse tempo perdido, mas depois pensou de novo e concluiu que tempo não se perde, gasta-se em aprimoramentos.

 

enquanto isso

obra | jacob rechter
obra | jacob rechter

 

 

acendeu o cigarro e ficou olhando para cima, acompanhou a dança da fumaça rumo ao teto, até desaparecer. deu uma tragada forte, soltou de novo, a boca em o, tentou fazer argolas de fumaça, sentou-se numa poltrona. preciso fechar a cortina, pensou, antes que alguém veja. então se levantou e fez isso, puxou o tecido para deslizar sobre a vareta de sustentação, lá no alto. passou por cima do corpo, na ida e na volta. sentou-se de novo, de novo tragou, de novo soltou a fumaça e ficou acompanhando o movimento. os dedos ligeiramente esticados em volta do pequeno cilindro branco, as cinzas se formando na ponta, o fio incerto de fumaça a sair daquele ponto minúsculo, primeiro reto, para cima, então se esgarçando, abrindo e desaparecendo, transformação em fantasma. seria preciso em seguida decidir o que fazer. mas primeiro o cigarro, esse estímulo necessário para alterar a pressão do tempo, para deixar que as coisas encontrem os devidos lugares. porque seria preciso isso, fazer com que as coisas encontrassem os devidos lugares, de alguma forma, o quanto antes.

 

tempos diferentes

o homem sempre brigou para dominar o tempo, ou pelo menos para entendê-lo. é luta inútil, parecida com a de quixote contra os gigantes. o homem enxerga o problema da mesma forma que quixote enxerga gigantes: de maneira errada. ao contrário de cervantes, no entanto, que alerta seus leitores para o erro do personagem, não se tem para o problema do tempo um narrador que chame a atenção para o problema. o que o jornalismo faz é tornar o problema do tempo sempre mais agudo: afirma um presente peremptório, inesgotável. no jornalismo não habita o ser, mas o estar sendo, sempre em movimento. jornalismo é rio de heráclito — sempre o mesmo, nunca o mesmo.

tempo e narrativa

andrés castilla é escritor e protagonista do romance romance de ramón gómez de la serna chamado el novelista, ou seja, o romancista. no início do livro, ele escuta dois relógios, um de bolso, outro na parede. “será que os dois tempos podem ser o mesmo?”, pergunta-se. lembrei imediatamente de adoniran barbosa: “num relógio é quatro e vinte, no outro é quatro e meia, é que de um relógio pra outro as horas vareia”, numa mistura de português macarrônico de imigrado e sacada filosófica. lembrei também de são tomás: “o tempo é isso, se não me perguntam, sei o que é. mas se perguntam, não sei o que responder”.