Lembrar a infância

Foto | Lorraine Healy
Foto | Lorraine Healy

 

 

Meu analista me recomendou que escrevesse a respeito de minha memória e da infância. Tudo o que você conseguir se lembrar, ele disse, sério. Pensei imediatamente no romance de Italo Svevo, A consciência de Zeno. Passei numa papelaria e, dessa vez obediente, investi algum dinheiro sério num bloco de anotações que me agradou, importado e caro como um fígado ou um rim. Era o primeiro passo rumo à cura para iniciar o tratamento. Ou rumo a mais deslavada invenção, porque decidi que iria me dar uma infância atribulada e aventuresca, bem diferente do que tinha sido na verdade, com orfanatos, fugas espetaculares, sequestros, abduções, reviravoltas. Se minha doença não tiver cura — verdade é que de fato não creio que exista, é crônico e insolúvel meu problema —, pelo menos posso angariar algum reconhecimento como escritor de falsas memórias e lançar uma carreira literária, quem sabe. Então, a elas.

Tudo começou em…

 

sensação de pertencimento

imagem | clare elsaesser
imagem | clare elsaesser

 

 

cresceu acreditando que havia perdido alguma coisa ou que lhe faltava algo, um membro invisível que os outros seres humanos todos tivessem e ele não, por algum motivo desconhecido. queria pertencer ao clube, por isso acreditava estar sempre sob avaliação e qualquer dia desses alguém se dirigiria a ele na rua para lhe comunicar de maneira secreta e transmitindo-lhe uma senha, que havia sido aceito. ou uma carta lhe chegaria na caixa de correios do seu bloco. enquanto o dia não vinha, discutia o assunto na terapia, a psicóloga sempre gentil e firme, mas nunca compreendeu direito aquele assunto que ele considerava essencial. para ela, tratava-se apenas de 1 alimentar uma fantasia e 2 gerar uma falsa expectativa. a verdade é que o mundo não ligava a mínima para aqueles problemas dele e, ou bem ele os resolvia e mergulhava de uma vez no fluxo da dança da vida ou continuariam a mantê-lo do lado de fora do clube.

 

sincronia impossível

passagem

 

 

fazia grande esforço para viver sempre no presente, concentrando-se no que havia de bom no momento em que se encontrava e em se livrar dos problemas que porventura se apresentassem. mas bastava um pequeno deslize, um momento curto de falta de foco para se pegar ou projetando o futuro ou nostálgico com relação a algo que lhe havia ficado lá atrás. um grande insatisfeito, é isso que o homem é, dizia, no divã do analista, e a culpa é da consciência que ele tem do tempo, ao fracioná-lo em três partes. o analista balançava a cabeça, fingindo concordar, mas a verdade é que não estava em sua alçada compreender a verdadeira dimensão psicológica do problema do tempo, porque só conseguia pensar em termos de implicações relacionadas à vida cotidiana e social do cliente. queria tradução para termos mais pedestres. não posso tratar de um problema relacionado à noção de tempo, o analista reclamava, quando era ele no divã, com o mentor que precisava ter para manter a qualidade do trabalho. e portanto o tempo continuava a fazer o trabalho de desorientar os humanos, de modo geral e irrevogável.