Esperança é vício

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Regular o futuro e as esperanças pelas estações. Regular o passado pelas memórias, recompostas ou fidedignas. Mas o que alguém pode saber do meu passado, por mais que eu insista em relatos circunstanciados? Havia uma vaca com dificuldades de parir, por exemplo, e meu avô chamou um veterinário e me deixou assistir à intervenção no curral a céu aberto: ele enfiou o braço dentro do traseiro da vaca e puxou de lá o bezerro, que estava com as patas para fora mas não nascia. Um deles, talvez os dois, vaca e bezerro, se salvaram e se tivesse que fazer uma aposta diria que foi o bezerro. O veterinário ficou com o braço encharcado e a autoconfiança de quem realizou bem o próprio trabalho. Mas de que adianta esse relato, a mim, aos outros, a quem seja? A vaca e o bezerro já morreram há muito, meu avô também, logo será minha vez. Eu conto, no entanto, na esperança (essa centelha do futuro que ainda insiste comigo no poder das expectativas) de que algum neto me leia (meu avô só deixou livros-caixa; não sei nada a respeito do que pensava) e me entenda, ou pelo menos saiba o que me inquietava, quando eu era vivo. Meu avô deixou terras, que se converteram em dinheiro também para mim. Meus netos terão minhas palavras, que valem pouco do ponto de vista prático, mas talvez lhes sirvam para alguma coisa. Tenho esperanças, elas me alimentam de futuro.

 

ponderações

foto | lina reyes
foto | lina reyes

 

 

havia tanta coisa a discutir. mas a disposição. quis falar a respeito de ausências. uma lacuna, o que disse. é assim como uma lacuna. as coisas parecem estar lá, a preencher todos os espaços, não há quase vazios, mas quando você pensa na imensidão do universo, nos espaços vazios entre planetas, grandes espaços vazios que ocupam a maior parte de tudo, se bem que ocupar não é a palavra precisa. o olho seguiu o movimento, também um tipo de órbita, apenas mais restrita. no fundo talvez fosse isso, do ponto de vista de uma pessoa a terra é grande, mas do ponto de vista do universo ela não passa de uma reles particulazinha de poeira que atrapalha o universo a ser limpo e vazio e lúcido. a terra é um fio de sujeira que atrapalha a limpeza absoluta, disse. um conceito ousado. se certo, torna deus um estúpido que não sabe limpar a própria casa da sujeira. mas talvez o conceito de limpeza não se aplique. é de se pensar. enquanto isso, um cego tap-tapeava com a bengala pela calçada, a caminho de alguma resolução.