Brasília te amo e te odeio

Arte | Constantinos Chaidalis
Arte | Constantinos Chaidalis

 

 

Brasília é um monstrengo. O vazio imenso, a ocupação insana. Onde alguém via espaço negativo, quiseram preencher: negativo é o caralho, imagino que alguém possa ter dito. É preciso preencher cada centímetro, sem falta, como se o vazio fosse falha a ser corrigida. Mas não se consegue mover uma palha contra a amplitude do céu, o espaço negativo superior que encobre tudo. Um monstrengo, nem vazia, nem cheia.

 

Certa autoconsciência

bonde

 

 

Os destinos das pessoas, quer queiram ou não, estão emaranhados. Não escolho as pessoas com as quais a minha vida vai se cruzar, mas sei que em boa parte do tempo a estratégia das pessoas é vestir uma máscara de indiferença e ignorar todos os novos humanos que lhe cruzarem pela frente. Não posso simplesmente dizer que se trata de um erro ou um equívoco. Seria exaustivo para qualquer um lidar com todos, dirigir-se a todos, manter o interesse e as conversações. A verdade é que a vida da maioria das pessoas é constituída de momentos vazios, obsoletos, desnecessários — no entanto, é disso também que é feita a experiência de estar vivo. Uma pessoa se dá conta, a certa altura, de que seu círculo de conhecidos será bem limitado, por mais que queira ampliá-lo. E conhece-se bem e a fundo, mesmo, um número ainda mais reduzido. A vida, pensei, é uma experiência estranha. Minha pele apresenta protuberâncias — acnes, cravos, espinhas — desagradáveis aos olhos, mas o meu interior tem escaras muito mais graves e no entanto há quem me aceite e me estenda afeto e ternura mesmo que eu não me julgue digno de obtê-los. Em algum lugar, creio — e essa crença me anima — há alguém que, se a loteria da vida me permitir encontrar, isso fará com que eu me desempenhe ao máximo e será o mesmo com ela, o que vai acabar resultando em que nossas vidas não apenas se completem uma a outra, mas que esse fato também faça a diferença para a vida das pessoas a nossa volta e com isso teremos motivos para nos orgulhar das escolhas que fizemos. Mas é uma loteria, como disse, e nem todos serão agraciados. Para a grande maioria, a marca fatídica é a da ausência, tanto de uma outra pessoa como, e isso é o pior, de si mesmo.

 

ponderações

foto | lina reyes
foto | lina reyes

 

 

havia tanta coisa a discutir. mas a disposição. quis falar a respeito de ausências. uma lacuna, o que disse. é assim como uma lacuna. as coisas parecem estar lá, a preencher todos os espaços, não há quase vazios, mas quando você pensa na imensidão do universo, nos espaços vazios entre planetas, grandes espaços vazios que ocupam a maior parte de tudo, se bem que ocupar não é a palavra precisa. o olho seguiu o movimento, também um tipo de órbita, apenas mais restrita. no fundo talvez fosse isso, do ponto de vista de uma pessoa a terra é grande, mas do ponto de vista do universo ela não passa de uma reles particulazinha de poeira que atrapalha o universo a ser limpo e vazio e lúcido. a terra é um fio de sujeira que atrapalha a limpeza absoluta, disse. um conceito ousado. se certo, torna deus um estúpido que não sabe limpar a própria casa da sujeira. mas talvez o conceito de limpeza não se aplique. é de se pensar. enquanto isso, um cego tap-tapeava com a bengala pela calçada, a caminho de alguma resolução.