Como emagrecer

 

cãozinho

 

 

Ele permaneceu em silêncio durante todo o voo, mergulhado nesse lado interior que o pensamento insiste em iluminar para que o sujeito volte a pensar mais uma vez a respeito de si mesmo, de limitações pessoais e possibilidades projetadas, como se tivesse sempre diante de si a balança da existência a medir as diferenças entre vantagens e atropelos. Quando buscou a mala na esteira e em seguida pediu ao motorista do táxi que o levasse ao hotel onde havia feito reserva, reteve durante um bom tempo a sensação de que chegara o corpo, mas algo faltava aterrissar, como se houvesse esquecido no avião (que ainda seguiria diversas rotas naquela noite) uma parte importante de si que não teria como recuperar de volta. A cada viagem, sentia ficar mais econômico e magro, como se deixasse pelo caminho o que não era mais necessário carregar. Haveria tempo em que nem mesmo carregaria mala.

 

No rumo de casa 3

Imagem | Laurent Chehere
Imagem | Laurent Chehere

 

 

Um vento atroz percorria a praia e vinha até o centro da cidade, com aquele odor marítimo característico, como se o oceano fosse uma enorme panela em que os animais, mesmo vivos, estivessem sendo cozidos lentamente. A mulher tinha os cabelos soltos, esvoaçantes por conta do vento forte, e um casaco que era uma espécie de vela terrestre do corpo, navio e mastro de uma só vez. Tinha desembarcado à procura do grande amor de sua vida, todos estão sempre à procura do grande amor, esse mito que permanece no horizonte. Para quem encontrou, daí a pouco começa a ladainha de reclamar do convívio e é possível imaginar que o amor da vida está em outra parte, no canto do mundo reservado aos amores da vida. Numa foto antiga, ela aparecia nua, sorrindo para a câmera, segurava os seios com as mãos e sugeria topar qualquer convite inusitado. Agora a mala era quadrada e parecia pesar muito, teria ali dentro o que achava essencial, para o caso de encontrar o amor. Embarcar, navegar, criar expectativas, desembarcar do outro lado, erguer a mala, carregá-la por ruas ventosas, o cabelo desarrumado, o amor cada vez mais perto, é o que ela imagina, é o que todos começamos a imaginar, torcendo por ela, pelo encontro, adoramos todos as histórias com finais felizes, por mais que saibamos que só existem nesse formato de histórias, não na vida real. Na vida real há vento e cheiro forte de peixes, um oceano bravio e uma pedrinha que entra no sapato e precisa ser retirada, a travessia completa, um descortinar de oportunidades que tanto podem se revelar contentes quanto muito frustrantes, não se sabe. Talvez caia uma chuva e será muito bom se ela estiver abrigada, quando isso acontecer, será muito bom se estiver aquecida e sentada, uma xícara de café ou chocolate quente para também aquecer por dentro, um olhar lançado para o vidro da janela onde as gotas de chuva batucam e se prendem, para começar uma corrida vidro abaixo, quem vai chegar primeiro, o modo como se prender aos detalhes impede o pensamento de ir atrás de questões complicadas. Aproximei-me da mesa e disse, pode ser que seja eu. Perdão, ela respondeu, não entendi. Nada, comentei, apenas disse em voz alta uma coisa que estava pensando, me desculpe. Ela virou o rosto de novo para a janela, tudo bem, disse, a voz suave, melodiosa, um acinte de voz, mas a atenção sobre a minha pessoa começou a se diluir naquele momento. Os cabelos eram cacheados e enfeitavam um rosto que eu tinha vontade de dizer que pertencia a uma deusa. Ia perdê-la, para sempre, se não a fisgasse. Aquele peixe, aquela sereia, vinda do oceano até onde eu estava, era um presente mas era fugidio. Ou você age, minha voz interna me deu um ultimato, ou perde. Com você eu seria capaz de ir a qualquer água, a toda parte, falei. Ela me olhou como quem se dá conta de estar na presença de um louco. Tem hora que não se pode perder tempo, ou você lança a linha e o anzol, ou vira o barco e passa fome. Não estou recitando uma fala de uma peça, não, moça, é isso mesmo que você acabou de ouvir. Qualquer parte. Entende? Posso te pagar mais uma bebida? E ali começou o nosso romance, o desentendimento mútuo, a vontade de ir ao outro lado do globo para encontrar um novo amor, porque ele está sempre lá, do outro lado, no canto do mundo reservado aos amores da vida.

 

Prestes a viajar

submarino-no-gelo

 

 

O sujeito estava sentado num banco da estação de trem, a mala aos pés, um sobretudo para combater o frio. Ele tinha ido ao país estrangeiro com a imaginação instilada por uma série de romances que lia sobretudo em traduções. O país encontrado, no entanto, foi inteiramente distinto, a não ser por uma ou outra daquelas construções antigas que sobrevivem aos avanços do tempo e à ganância dos empresários do setor imobiliário. A decepção do sujeito é quase tão grande quanto o frio que está sentindo. Ele aguarda o trem que o levará a um país diferente — e se vem aí outra decepção não é o caso avaliar neste momento, mas certamente é tema que lhe ocupa o pensamento. Resta deixá-lo aí, as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo, as pernas unidas para evitar dissipação do calor, e torcer pelo melhor, mas sem que se possa dar qualquer tipo de garantia. Como acontece na vida, aliás.

 

flutuações do pensamento

foto | matthias heirerich
foto | matthias heirerich

 

 

meus olhos caminhavam meio vagabundos pela sala, a poltrona, as estantes, o vaso de begônia que eu normalmente maltratava com pouca água, os quadros todos um pouco bêbados, se alguém tivesse o cuidado de reparar bem —- eu estava reparando, por sinal. o pensamento, no entanto, estava na sala e não estava, ia lá fora e longe, nova york, a chapada dos veadeiros, o atlântico sul em polvorosa no cabo das tormentas, o polo norte com grandes placas brancas de vastidão e opacidade, dinamarca, certas imagens de povos do interior da rússia em nada parecidas com as que a televisão e os jornais insistem em mostrar, das mesmas e velhas e conflituosas capitais, um anoraque. o pensamento também ia ao passado, em mergulhos súbitos e disparatados, depois ao futuro cheio de cores e possibilidades. a vida, eu me sussurrei, como se precisasse me convencer, essa minha mania de ser um outro que conversa comigo, é uma coisa bem interessante. pena que acabe tão rápido.

 

um sonho, depois o real

foto | mario cravo neto
foto | mario cravo neto

 

 

o sonho foi intenso e deixou uma sensação estranha de que tinha conseguido se impregnar na vida “real”. claro, eu sabia, sempre soube, o real é apenas delírio da minha cabeça aliado à sensação de durabilidade, de persistência, sobretudo por conta da força brutal da memória, esse mamute que todo homem é obrigado a arrastar atrás de si pela vida afora. não tive mais dúvida quando o monstro do meu sonho se materializou em batidas à porta e um convite se seguiu, para a próxima viagem. sabia o abismo escuro em que aquilo terminava, o sonho tinha sido bem claro a respeito, e portanto não me restou alternativa a não ser dizer que sim, eu embarcaria.

 

como encarar viagem

ilustração | andy denzler
ilustração | andy denzler

 

 

está tudo pronto para a viagem, pensei, quando tudo estava pronto, as malas feitas, as coisas nos devidos lugares. agora só me resta esperar a hora de ir para o aeroporto, pensei também. então comecei a raciocinar a respeito justamente das esperas. primeiro, pela hora certa; depois pelo ônibus que me levaria até o aeroporto, onde nova espera seria necessária, na fila do check-in, em seguida, na sala de embarque. quando entrasse no avião, esperaria pela liberação para o voo e, uma vez erguida a aeronave do solo, esperaria a conclusão da viagem; depois esperaria a hora do desembarque, a chegada da mala na esteira, o novo ônibus até o centro da cidade para a qual me dirigia. a viagem se transformou numa sucessão de esperas, mais do que qualquer outra coisa: aquilo que vejo, alguma coisa que aprendo, uma novidade qualquer que testemunho, cada vez mais escassa, o repertório do mundo tende a se repetir. então, me pergunto, qual a vantagem de viajar? mas isso é apenas a parte mais visível do mau humor, pondero. vou acabar gostando dessa viagem, haverá algo nela que… então me dou conta de que é hora de pegar as malas e me dirigir para a próxima espera.

 

época de mudanças

montanha

 

 

o casal se aposentou na mesma época e antes de afundar na mesmice das atividades reservadas a quem para definitivamente de trabalhar, decidiu que uma viagem distante para visitar um vulcão em atividade era necessária. só ela voltou viva da viagem, acompanhada do caixão com o corpo do marido. um acidente horrível o matou. o laudo sugere, mas de forma inconclusiva, um tipo raro de intoxicação com fumaça vulcânica combinada com a ingestão de certo alimento regional que seria, para ele, alergênico. à boca pequena comenta-se que a mulher aproveitou a oportunidade para envenenar o marido e se livrar também dele, nessa fase importante de mudanças decisivas.

 

três motivos

não gosto muito (nunca consegui concluir a leitura) de uma viagem sentimental, do laurence sterne. mas gosto dos motivos que ele dava para alguém viajar: enfermidade do corpo, necessidade inevitável e imbecilidade do espírito. se pensar nas levas de turistas contemporâneos, ninguém vai ter dificuldade de acertar o principal motivo pelo qual se viaja tanto hoje em dia.