Qual o seu número

Imagem | Mateusz Rybka
Imagem | Mateusz Rybka

 

 

Você nasce

e te dão uma pulseira no hospital

com um número

um código uma cifra

um início registrado

Você morre

e seu pé ganha uma etiqueta no necrotério

com outro número

outro código nova cifra

o fim catalogado

 

Você tentou outras tantas coisas

na vida

— emoções

lágrimas

destemperos

gritos

brados

fazer a diferença (mas qual?)

 

Você tentou tudo

Tudo do mesmo jeito

achando que era inédito

sem ser

 

Escapar dos números

e desviar das balas

Super-herói e mega-vilão

risos sem fim

o deslimite regulado

controle transigência

 

Você acha que sabe do que é feito

depois de anos terapêuticos

Você sabe que não sabe de nada

e se soubesse não contava

 

Você acha que sabe do que está falando

e com quem está falando

e o importante é dizer

— ou calar

Você cala

De que adianta

uma coisa e outra

 

Você pondera

Paciência é um estudo

de anos de impaciência

 

Sua vida é um limbo

Importou para você e só

Os outros fingiram ligar

mas só se importaram com eles mesmos

e não foi suficiente

Nunca é

 

Você envelheceu

Encinicou

Ficou remediado

Os números na conta bancária

ações investimentos

no que sempre fingiu desprezar

e hoje tanto te preocupa

 

Sua lápide terá bonitos dizeres

e um recado de entes queridos

Adorado esposo amado pai

A morte apazigua

Lerão a lápide

Mas toda vez que tiverem de localizá-la

recorrerão aos administradores

dos seus restos mortais

e eles darão um número

que ajuda a encontrar

o buraco onde te enfiaram

e enquanto você apodrece no escuro

te louvam as qualidades de pedra

para qualquer passante

se impressionar — entre um bocejo e outro

Agora me diz

valeu a pena?

 

Um casal diferente

carro-flutuante

 

 

Toda vez que penso a respeito do assunto, não consigo deixar de achar que é estranha a união daquele casal e acho que todos na minha cidade concordavam nisso. Os dois não poderiam ser mais diferentes nas escolhas profissionais e é algo tão determinante para dizer que tipo de vida você pretende levar, que me parecia sempre maluco que Iêda fosse mulher de Zenóbio. Parteira, Iêda sempre esteve ao lado de pessoas que estão grávidas, que geram vida, trazem existências para este mundo. Um momento inquietante, sem dúvida, temerário, em alguma medida, também, mas sobretudo um momento de felicidade extrema, de potência absurda, de vitalidade e de superação. Essa mulher gera vida. Essa mulher, Iêda, ajuda no processo. Iêda é uma das sacerdotisas da vitalidade. Pode haver algo mais belo? Bem, por contraste absoluto, o marido, Zenóbio, é agente funerário. Prepara corpos para frequentarem caixões abertos por alguns instantes e em seguida fechados para a eternidade. Zenóbio trabalha com o fim, com o momento em que a vida não está mais lá, e portanto ele precisa ser atencioso para com toda aquela quantidade de lágrimas e choro dos parentes e amigos do morto que estão envolvidos com esse momento tão terrível quanto inevitável. Não consigo pensar no cortejo entre os dois, não consigo imaginar Zenóbio chamando Iêda para um cinema, conversando ambos a respeito dos respectivos trabalhos, interessando-se, apaixonando-se, tomando sorvete juntos. Nem mesmo quando penso naquela imagem da cobra que engole o próprio rabo e que sugere que início e fim são parte da mesma coisa, nem assim me convenço.

Foi inevitável que em algum momento as pessoas começassem a desconfiar das aptidões de um e de outro. Quando Iêda perdia uma criança ou uma mãe, porque essas pedreiras existem na vida de uma parteira, vamos ser francos, bem, quando isso acontecia sempre se podia pensar até que ponto Iêda não estava dando uma ajuda ao destino e indo em socorro do negócio do marido, que nem sempre apresentava demandas. A favor dela deve-se dizer que nunca, jamais mencionou o nome do marido nessas ocasiões. Mas as pessoas sabiam, faziam a associação e então perguntavam. Nessas ocasiões, sim, os dois pareciam partilhar do mesmo princípio e da mesma proximidade, vida e morte passavam a estar definitivamente na mesma fronteira e muito próximas. O que é difícil para todo mundo, suponho, e também para mim, não nego, é que viver é tão precário e morrer é tão definitivo e aqueles dois apontavam isso para todo mundo de maneira muito evidente, sem qualquer disfarce ou pudor, que para todos nós era dolorido e angustiante lidar com a situação. A favor deles, sempre se deve registrar que eram discretos, dificilmente eram vistos em público de mãos dadas ou aos beijos. Bem, e agora que contei tudo isso e cheguei até aqui, não sei como termina essa história, que encaminhamento dar a ela, que tipo de moral retirar de tudo isso. Não tenho uma reviravolta para apresentar, nem uma reflexão a sugerir nem sei que tipo de desfecho é mais propício ou apropriado, de modo que a história vai ficar sem fim adequado, apenas com essas minhas palavras de inconclusão.

 

a morte no caminho

torre

 

 

a morte havia se banalizado a tal ponto que, sem ninguém se dar muito por isso, tinha se trivializado. as pessoas morrem, fazer o quê?, era mais ou menos a lógica vigente. as pessoas começaram atendendo celulares nos velórios e enterros, esse chamado inapelável da vida com a qual, no fim das contas, os sujeitos estavam comprometidos. a coisa começou a piorar quando deixaram de comparecer. mandavam mensagens de condolência para a família pelo celular, curtiam nas redes sociais os anúncios de missa de sétimo dia, como se fosse algo agradável a ponto de ser curtido, e impreterivelmente faltavam, quem tem tempo para missa de sétimo dia? alguns chegaram a cometer a desfaçatez de perguntar nos círculos mais restritos por que as pessoas ainda insistiam em morrer. aquilo, afinal, estava atrapalhando o andamento dos negócios.

 

quer dizer

foto | andrew miksys
foto | andrew miksys

 

 

retirou-se desta, dizem. alguns creem ou querem fazer crer que para melhor, mas o que me pergunto é se alguém se dá conta da ironia contida nas expressões. no caso da primeira, a iniciativa de retirar-se nunca é do sujeito. no caso da segunda, ninguém tem como saber se a grande noite é mesmo melhor do que essa agitação que é a vida. mas depois me dou conta, zombar da morte é o jeito de disfarçar o terrível medo que se sente dela.

 

atração fatal

rostos

 

 

quando jovem, não via problemas em visitar cemitérios, inclusive para neles exercitar certo voyeurismo com túmulos de pessoas conhecidas. mas com o passar dos anos o incômodo da certeza de que cada vez num tempo mais breve seria sua hora tornou-o primeiro reticente e, por fim, francamente avesso a ir aí. morriam-lhe os amigos e ele se recusava a ver o caixão descer. a tentação do buraco, dizia, não lhe agradava. alguns o chamavam de covarde, mas ele dizia com veemência que quanto mais ela escasseava, mais atraído ele se sentia pela vida.

 

vida das palavras

arte | adrianna wojcik
arte | adrianna wojcik

 

 

algumas palavras, quando envelhecem, são colocadas em asilo. aí permanecem por mais algum tempo, sendo visitadas cada vez menos pelos descendentes. então um dia morrem e deixam de frequentar os textos em caráter definitivo. não há quem lhes pranteie, ou faça o obituário nem qualquer outro elogio fúnebre. as lápides sequer registram o nome da palavra morta e tudo isso é muito triste, me parece, mas, ânimo, rapaz, me disse um gramático outro dia, a vida é movimento e algumas palavras precisam dar espaço a outras. eu sorri, mas porque ele me chamou de rapaz.