Coisas erradas

Imagem | Oliver Flores
Imagem | Oliver Flores

 

 

A melhor professora que tive, costumava dizer aos amigos. A vida só me ensinou coisas erradas, truques bestas, a ambição de jogar para a plateia, suprema vaidade que alimentei com humildade suficiente para ninguém perceber. Mas todo dia ela pedagogicamente me encaminha para o grande aprendizado ao me retirar o sabor de estar vivo. Sobretudo, é preciso aprender a morrer. Quando for a hora, fingirei o mesmo despreparo que todo mundo que me antecedeu, mas estarei pronto. Que digam a meu respeito que descansei, porque se tratará justamente disso, de descansar, de me livrar do peso infatigável que é estar semi vivo, fingindo que levo a sério esta coisa, sendo que nunca de fato aprendi a viver, ou quis, ou me interessei a fundo pela matéria. Estuda-se muito, a vida inteira, para atingir o ponto de certo de passar no vestibular da vida e entrar na universidade da morte. Fingindo que me ensina as coisas erradas, a vida está me encaminhando direitinho e o fato é que sou bom aluno.

 

À procura do segredo

planta

 

 

As minhas opções: neurastenia ou a liberdade das ruas. Correndo risco ser flagrado pelo meu chefe mais cedo ou mais tarde e sumamente demitido — por justa causa, ainda por cima — decidi-me pelas ruas. Acompanhei ao acaso o fluxo de algumas pernas femininas, recusei comprar loteria duas vezes, estudei a inclinação do sol nas laterais de uns prédios, acomodei-me como pude à vida, imaginando que poderia decifrar-lhe o segredo. No dia seguinte eu voltaria ao trabalho, humildemente me submeteria à comodidade embaçada que a rotina também me proporciona. Sabia que teria de esperar a próxima crise, o surto seguinte para de novo arrumar uma desculpa e lançar-me à rua como se fosse repórter especial da vida. Um dia descubro o segredo.

 

Contrastes de geração

Imagem | Regina Nieke
Imagem | Regina Nieke

 

 

A velha andava com dificuldade e tinha uma meia marrom, grossa, que insistia em escorregar pela perna abaixo. Me ajuda aqui, pedia ao neto, menino de cinco anos e um poder incomensurável de se deslumbrar com a grande quantidade de desconhecido que ainda tinha como futuro. Ele se aproximou para erguer a meia, reparando sem de fato entender na dificuldade da avó de movimentar-se e ao ver as manchas escuras na perna que a meia ia tampando caminho acima, percebeu que a morte vem em parcelas, manda recados nem todos sutis. Cinco anos e um impacto daqueles, uma revelação do poder avassalador do espetáculo que é a afirmação e o negar de todas as coisas, a vida um sonho ainda em andamento, sem roteiro prévio. Mas naquela mesma noite iria começar uma série de pesadelos relacionados com aquela imagem tão simples e corriqueira, tão cheia de camadas ocultas e dilemas a serem explorados.

 

Fundamentos da estética

Foto | Mark Bramley
Foto | Mark Bramley

 

 

Por definição um acidente é algo que não precisa acontecer. 

Paul Auster — Diário de inverno

 

Entretanto, ele ponderou, a vida é acidente e pelo menos nesse ponto os cientistas parecem estar de acordo. Tudo isso que se inventa, esse sentido de propósito, de coerência, de exatidão, isso é a fantasia humana de que as coisas podem dar certo. Esse grande esforço de organização, de tentar colocar as coisas numa ordem, isso é o brado rebelde contra a ciência do acidente, que garante ao projeto humano topadas, calombos na testa, desvios que levam a lugar algum, trajetórias frustradas. Depois que terminou ele deu um sorriso tímido, seu interlocutor permaneceu calado. O potencial explosivo e instantâneo do acidente, o sujeito prosseguiu, diante do silêncio do outro, isso é um projeto de beleza, não?, o verdadeiro fundamento da estética.

 

Falhas incorrigíveis

Foto | Sayaka Minemura
Foto | Sayaka Minemura

 

 

Cheia de imperfeições, a vida é manca. Com a literatura não é diferente. Os escritores tentam dar o melhor de si, muito esforço e tutano à procura do ritmo perfeito, da palavra exata, da fluência bem dosada, mas a falha, a imperfeição está sempre no encalço. Há quem se angustie com isso, caso de Fausto, que tem insônias com o assunto, dobrado sobre o papel, na tentativa de destilar ideias da cachola, como se houvesse nesse ato insensato algum sentido a se obter. Mas da vida, é preciso que se diga, vem também o aprendizado do convívio com a imperfeição, de onde se retira o tempero da beleza. Sabe, a simetria é enfadonha. Claudia, a vizinha, plena consciência do fato, cantarola despreocupações vida afora, sozinha ou em dueto com o rádio, enquanto dedica as curvas à felicidade e aos temperos da comida que prepara com o mesmo gosto que põe em todas as áreas que a satisfazem, sobretudo essas que te ocorreram quando você leu a frase. Voraz e animada, voluptuosa, Claudia sabe que é de barulhos que o mundo se lembra, então faz questão de ampliar os próprios para ser lembrada. Fausto e Claudia atropelam suas intempéries no elevador, avaliam personalidades nesse espaço social de confinamento temporário e cheio de sugestões ao constrangimento. Mas não para Claudia, que sorri para Fausto como se sorrisse para o amante. Ele se desconserta, tímido e cauteloso, ela não liga, a vida não espera, é manca, mas Claudia não é e não perde tempo com hesitações ou com quem se perde nelas. Ao sair, tem pressa porque é feliz, joga um tchau melodioso e sugestivo e se ele tivesse erguido a cabeça teria visto que ela chegou mesmo a lançar uma piscadela provocadora. Fausto rumina, antecipa os momentos em que tentará captar, inútil e repetidamente sobre papel (suas amarras), a vida que escapa pelo elevador, a passos largos porta afora, para viver com intensidade, antes que tudo se evapore porque esse é o destino inexorável.

 

flutuações do pensamento

foto | matthias heirerich
foto | matthias heirerich

 

 

meus olhos caminhavam meio vagabundos pela sala, a poltrona, as estantes, o vaso de begônia que eu normalmente maltratava com pouca água, os quadros todos um pouco bêbados, se alguém tivesse o cuidado de reparar bem —- eu estava reparando, por sinal. o pensamento, no entanto, estava na sala e não estava, ia lá fora e longe, nova york, a chapada dos veadeiros, o atlântico sul em polvorosa no cabo das tormentas, o polo norte com grandes placas brancas de vastidão e opacidade, dinamarca, certas imagens de povos do interior da rússia em nada parecidas com as que a televisão e os jornais insistem em mostrar, das mesmas e velhas e conflituosas capitais, um anoraque. o pensamento também ia ao passado, em mergulhos súbitos e disparatados, depois ao futuro cheio de cores e possibilidades. a vida, eu me sussurrei, como se precisasse me convencer, essa minha mania de ser um outro que conversa comigo, é uma coisa bem interessante. pena que acabe tão rápido.

 

sensação de pertencimento

imagem | clare elsaesser
imagem | clare elsaesser

 

 

cresceu acreditando que havia perdido alguma coisa ou que lhe faltava algo, um membro invisível que os outros seres humanos todos tivessem e ele não, por algum motivo desconhecido. queria pertencer ao clube, por isso acreditava estar sempre sob avaliação e qualquer dia desses alguém se dirigiria a ele na rua para lhe comunicar de maneira secreta e transmitindo-lhe uma senha, que havia sido aceito. ou uma carta lhe chegaria na caixa de correios do seu bloco. enquanto o dia não vinha, discutia o assunto na terapia, a psicóloga sempre gentil e firme, mas nunca compreendeu direito aquele assunto que ele considerava essencial. para ela, tratava-se apenas de 1 alimentar uma fantasia e 2 gerar uma falsa expectativa. a verdade é que o mundo não ligava a mínima para aqueles problemas dele e, ou bem ele os resolvia e mergulhava de uma vez no fluxo da dança da vida ou continuariam a mantê-lo do lado de fora do clube.

 

ator na vida

domo

 

 

para ele a cortina havia se fechado pela última vez. não seria capaz de perceber os aplausos da plateia. o homem é sempre o ator da peça a vida é sonho e não cessa de atuar nem para morrer, quando lança com os últimos estertores alguma frase ensaiada que o mantenha na lembrança dos vivos, como sua lápide insistirá em rememorar para quem passar por ali —- a sagacidade do eterno, o desejo insistente do não apagamento definitivo. o homem é dono dessa vaidade de vivo que lança para além de si mesmo, até os domínios da morte.

 

quando estiver morto

arte | ian teh
arte | ian teh

 

 

um dia estarei morto, minha voz silenciada, minha memória extinta. por isso as palavras no papel, o testemunho do que pensei —- de parte do que consigo, ao pensar, dispor no papel —- enquanto vivi. talvez não sirvam para muita coisa, mas a mim, enquanto estou vivo, me ajudam a compreender a experiência entre estranha e intimidadora, às vezes contente, que é estar vivo.

 

insistência

foto | pirkle jones
foto | pirkle jones

 

 

ele escrevia a respeito de homens perturbados pelo casamento e alguns andarilhos —- às vezes, algum personagem saía do casamento e se tornava andarilho, como se os anos de casamento com a causa de uma vida partilhada pudessem ser compensados pelas caminhadas intermináveis. nas entrevistas, ele sempre tinha que explicar que os personagens nada tinham a ver com sua vida real: era bem casado e nunca tinha sido andarilho —- nem alimentava a vontade de começar. quando vocês vão entender que se trata de invenção?, ele perguntava calmamente para todos os entrevistadores, que nunca se satisfaziam com a ideia de não existir relações entre arte e vida. em segredo, alimentavam a expectativa de que o casamento acabasse, para ver o que ele iria fazer em seguida.

 

mudar ou não

foto | j scriba
foto | j scriba

 

 

eu tinha parado de fumar e começado a correr —- provoquei uma grande reviravolta na vida, essa que é a verdade. quando tudo parecia estar indo muito bem, tive um ataque cardíaco e morri. as pessoas culpam o acúmulo de efeitos colaterais angariados na parte dissoluta, quando fumava e bebia e me acabava em esbórnias, mas o fato é que teria vivido mais se tivesse continuado a fumar e sedentário. exercícios são um acinte para o corpo. certas mudanças não são benéficas.

 

vida como esquecimento

escada

 

 

enquanto pôde, foi levando uma vidazinha sem fiasco, mas também sem grandes realizações, apenas o de sempre, a discrição, a invisibilidade como meta. mas que vida de merda, pensou, em mais de uma ocasião, sem que no entanto aquilo resultasse em qualquer alteração no rumo das coisas. porque não soubesse ou, pior, porque não quisesse. quando morreu, houve choro, mas nada em grandes proporções. o esquecimento naquele instante era mais forte. chegaram a mandar o nome para ser gravado na pedra da lápide, junto com a foto que era nova, mas hoje está velha e abandonada. o canto onde ficam os restos ninguém visita, o que lhe sobrou de família mudou-se para outra cidade, seu nome não é pronunciado, é como se nunca tivesse existido, embora possa ser chamado legião.

 

espaçoso

fotomontagem | caras ionut
fotomontagem | caras ionut

 

 

acumulou em torno de si todo o espaço que lhe era possível. tinha grandes as casas, os carros, terrenos, barcos. parecia sustentar de forma nem tão secreta o desejo de se apossar de todo o espaço do mundo. de nada adiantou. ao morrer, embora a lápide fosse gigantesca e com dizeres reluzentes, couberam-lhe estreitos o caixão e a cova.

 

ciclos

navio

 

 

o homem se prepara para dormir, lentamente. escova os dentes enquanto contempla o movimento da escova no espelho, as rugas em torno do olho, o cansaço do rosto que lhe sugere a necessidade de aumento do número de horas de sono, algo que a vida não lhe permitirá ter. sem problema, dormirá quando estiver morto. de fato, na cama, ele contempla primeiro o escuro, depois, quando desiste de tentar, a tela do computador, as páginas de um livro, as de uma revista, depois novamente o escuro. seu pensamento se volta para o instante em que estava no banheiro, andando lento, largo, larguissimo. a sucessão de movimentos — lento, apressado — que a vida apresentará de novo e de novo, como a repetição de histórias semelhantes que o cinema insiste em recontar. é simples, ele equacionou, numa hora você está vivo e depois não está. alguns serão esquecidos, alguns lembrados às vezes, enquanto a terra dá mais uma volta em torno do sol.

 

pela comida que se recebe

peixe-garoto

 

 

um peixe se afogando em ar, a boca sôfrega tentando sorver o nada. eles ficam mareados? ou nunca. sem sexo, vida sem graça, existir para devorar e ser devorado e não fazer sentido. existir para ser multiplicado no milagre, virar o símbolo do filho do homem. se sacrificando para nos salvar, o eco das vozes a repetir pelos milênios e milênios. a repetição é o truque para fazer dar certo, a vida só repetições, almoço, jantar, comer, dormir, trepar, lavar, de novo e de novo até quando. a luta contra o vazio, do tédio e da morte. a morte é o tédio eterno. o peixe significado, o filho do homem na cruz dos pecados de onde há de vir ressuscitar os vivos e os mortos, creio na santa. creio na anta. a crença uma cegueira. não saber, só saber, como queria édipo. pelo perdão dos pecados. pela remissão dos pecados, pela repetição dos pecados. o peixe que me perdoe por comer a sua carne. todos um só. todos carnívoros, a nos entredevorar. o canibalismo de comer o meu peixe irmão. tomai e comei todos vós. esse é o meu corpo. e nós nham. comemos. sem dó, nem pensar, como o peixe não pensa, não pênsil. não pensamos, comemos. a terra há de comer. o sacrifício, por todos nós. o seu corpo o seu peixe, em sacrifício, na pira e na cruz. no pirê e no pirex, na luz. meu jesus cristinho. as beatas estremecem. as carnes trêmulas, de prazer e de ansiedade. de onde há de vir. os vivos e os mortos. amém, meu bem. me passa o prato.

 

vida e morte

arte | judith eisler
arte | judith eisler

 

 

incapazes de definir o que é vida — tarefa espinhosa para a qual as tentativas são tão numerosas quanto os fracassos — os escritores concentraram-se em definir o que é morte — e a verdade é que o número de fracassos não foi menor, mas pelo menos havia charme e beleza naquelas palavras, que afinal serviam de consolo para muitos leitores mundo afora, tão condenados à vida quanto a morrer, quando chegasse a hora.

 

legados

foto | elvis martínez smith
foto | elvis martínez smith

 

 

então, a morte é esse momento em que a pessoa desiste de viver — o excesso de vida a exaure — ou o momento em que a vida desiste da pessoa, por achá-la de alguma forma desinteressante e destituída de atrativos para a continuidade? a pergunta, para a qual ele não tinha a menor ideia de sequer por onde começar a responder, assolou-o certa tarde durante a leitura de o legado de humboldt, o romance de saul bellow a respeito da relação de charles citrine e do amigo von humboldt fleisher, ambos intelectuais. havia esse momento do romance em que citrine é convocado para fazer parte de um júri e aproveita para ler revistas ou cartas ou pensar temas e questões para o ensaio que deseja escrever a respeito do tédio. “desde o início, a humanidade experimentava fases de tédio, mas ninguém se aproximava do assunto de frente e pelo centro, como um tema em si mesmo”, citrine registrava no livro, ou bellow travestido de citrine, uma vez que a orelha do livro diz que o romance se baseia na relação de bellow com o poeta delmore schwartz. depois ele diz que o tédio é talvez um tipo de dor, provocada “por faculdades não utilizadas, a dor de talentos e possibilidades desperdiçadas”. nosso amigo ficou pensando como foi que da leitura de dois trechos dedicados a discorrer a respeito do tédio e suas motivações sua cabeça fez um salto para começar questionamentos a respeito da finitude humana, mas é sabido que o cérebro tem analogias próprias que muitas vezes escapam a uma organização racional. então nosso amigo deu um suspiro, produziu uma anotação e deixou a vida prosseguir o curso.

 

vida entre cordões

o nascer só se completa quando o cordão que te prende a sua mãe é cortado. o sopro da vida depende desse corte, dessa ruptura primordial.

depois você passa a vida tentando desfazer os nós que te mantêem afastado do entendimento. os nós sustentam várias profissões (o médico termina a sutura com um nó; a costureira; o marinheiro; o sapateiro; o pescador; o cesteiro; o fabricante de tapetes; o cordoeiro de pianos; o empalhador de cadeiras; o acrobata; o açougueiro; etc.). quando for morrer, de novo será necessário cortar o cordão: dessa vez, o que te mantém atado à vida.

onde você mora

sempre tive sensação de não-pertencimento. dia desses ouvi música de marisa monte que dizia: eu sou daqui, não sou de marte, e imediatamente inverti a frase: eu não sou daqui, eu sou de marte. tenho receio íntimo de que alguém vai dizer, você não pertence a esse lugar — qualquer que seja esse lugar: uma profissão, um prédio, até mesmo o local que insisto em chamar de casa. instintivamente, concordo.

convencimento

eu não existo sem mim, fui forçado a concluir. talvez seja melhor não viver do que viver pela metade. mas uma vida pela metade parece ainda mais fácil do que a decisão pelo término. viver, pois, me disse, e joguei um chiclete para dentro da boca, para comemorar. tire essa nuvenzinha cinza de cima de sua cabeça, meu rapaz, eu me disse. impressionante como sou bom para me convencer a mudar de ideia. fico pensando se não foi o chiclete.