Sério

Foto | Gianni Berengo Gardin
Foto | Gianni Berengo Gardin

 

 

Ele era poeta, o que não abona qualquer pessoa, mas enfim. Era como se apresentava, quando alguém lhe perguntava o que fazia. Sou poeta, dizia, e não estava de gozação. Venho de uma família séria, ele dizia, sério. Era o que tinha ouvido a vida inteira — o traço de orgulho de que a família gostava de se gabar: eram gente séria. Se reconstruíssem a árvore genealógica, chegariam a algum remoto bandeirante, misto de caixeiro viajante e desbravador, com um toque de aventureiro. Seu pai tinha esbravejado quando ele disse que ia largar a faculdade de direito — não queria, não suportava a ideia de virar advogado, explicou — e começaria a escrever poemas. E vai viver de quê?, o pai lhe perguntou, as veias do pescoço prestes a escapar. Porque do meu dinheiro é que não vai, acrescentou, sem a necessidade daqueles óbvios xingamentos a respeito de se tornar vagabundo etc. Ele se virou por uns tempos com alguns amigos, arrumou bicos, trabalhos subalternos e humilhantes que jurava que lhe serviriam de inspiração. Quando o encontraram nessa festa, ele ainda estava firme no propósito de ser poeta, embora soubesse que jamais ia viver disso, direta ou indiretamente. Poeta é efeito colateral de alguma outra atividade. Ele ia se transformar no cara que envelhece lendo Maiakovski na loja de conveniência, como diz a letra de uma canção popular, embora preferisse Akhmatova, no caso da poesia russa. Triste e melancólico — e profundamente poético, o que talvez caía bem.