o texto da assinatura do blog pelos próximos dias é de um verso de luiz martins.
o outro é uma sombra, vulto, fantasma — ismael disse.
discordo — respondeu o outro. o duplo, porque é sobre ele que você está falando, o duplo é eu mesmo, amplificado.
mas amplificado minimamente — rebateu ismael. amplificado de forma discreta.
nem sempre — prosseguiu o outro. veja como sei fazer escândalo.
e foi para o meio da rua e foram atropelados os dois, porque ismael foi tentar impedir o outro. no entanto, a ambulância só recolheu um corpo.
— a questão é apenas uma — ele disse, e sorveu um gole de café. — comete-se um erro primordial, um erro de começo que determina e desencadeia uma sucessão de erros. a ponto de se poder falar que a vida não passa desses dois movimentos.
— hum — fez o interlocutor.
— adicionar erros sobre aquele erro original e tentar percorrer o caminho em sentido contrário para, corrigindo o erro primitivo, corrigir toda a vida.
— mas é impossível corrigir o passado.
— o que sobra é prosseguir, acumular ainda mais erros.
— você se leva muito a sério. é por isso que não corre riscos.
— estou tentando eliminar o número de erros.
— só digo isso, quem não se arrisca e não erra, não vive direito.
o mundo caminha com bastante pressa rumo ao ajuntamento de pessoas e ele se mantinha um solitário radical que prezava muito a si mesmo, a ponto de arrogância.
quanto maior o convívio, menos compreendia as pessoas. havia especialistas em deixar os outros à vontade, estalando uma linguagem estudada de franqueza; havia reflexivos reticentes; inocentes descolados — o mundo tem uma variedade tão grande de pessoas e desentendimentos que a contabilidade se faz impossível.
ele, no entanto, sorria e era gentil no atacado, mas se isolava na solidão cada vez com mais afinco, a ponto de parecer fanático.
será que os anjos fazem fila?
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escrever refresca o espírito e põe ideias em circulação.
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defeitos físicos estimulam ideias próprias, segundo lichtenberg, o corcunda.
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em algum lugar em meio a tanta sujeira e feiura se esconde a beleza. não se mostra para evitar o desgaste.
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os brasileiros somos bufões do planeta e nem essa função desempenhamos bem.
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minha geografia interior é cheia de becos sem saída e ninguém consegue lhe desentranhar o mapa.
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uma das manifestações de inteligência da relojoaria universal é deixar as pessoas inconscientes de si mesmas a maior parte do tempo.
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morrer: virar a esquina definitiva.
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todo fantasma leva uma vida clandestina.
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o equilibrista tem a disciplina de controlar o abismo.
quando as duas moças se aproximaram da mesa do escritor famoso que jantava sozinho ele mentalizou a caneta que tiraria do bolso do paletó para fazer o autógrafo que elas certamente vinham pedir.
além das mãos abanando, no entanto, sequer tinham bolsa de onde retirar algum daqueles muitos romances que lhe angariaram fama.
elas sorriram.
— queremos saber se o senhor nos faz a gentileza de nos comer ao mesmo tempo…
pensou que havia escrito toda a obra e lutado tanto para ganhar o nobel de literatura só para chegar a uma epifania como aquela.
na realidade… [finais alternativos]
1. as moças eram mesmo lindas, tinham bolsas a tiracolo, e agradeceram com um sorriso o autógrafo que cada uma levou.
2. o garçom lhe estendeu a fatura do cartão de crédito para que assinasse. não estava interessado no que ele escrevia. nem se ele tivesse ganhado o prêmio nobel de literatura.
os cientistas que inventarem a máquina de teletransporte que leva aos confins do universo ficarão orgulhosos.
o primeiro teletransportado provavelmente ficará assustado com o mecanismo que o levou até ali.
depois olhará em volta. e de novo. e de novo.
depois soltará um bocejo.
não acredito em alma, muito menos em deus. portanto, não posso acreditar em mefistófeles e você aí (dirigindo-se à imagem no espelho), embora se pareça muito com ele, não me convence com essa oferta meia-boca.
quer tentar alguma coisa um pouco melhor, pelo menos?
a existência é sucessão (positiva) de intervalos. preenchê-los com alguma coisa (afazeres e a memória deles) é o que se percebe como ação e na verdade o valor negativo a respeito do assunto.
sucessão de intervalos não configura ausência, mas presença.
o universo é uma fantasia que sai da minha cabeça — a mesma que produz os pequenos críticos que me chamam de megalomaníaco.
o médico prescreveu uma dieta de shakespeare três vezes ao dia durante uma semana.
caso não houvesse melhora, devia tentar machado de assis em dose única.
se não funcionasse, devia procurá-lo novamente.
as pessoas circulam pela cidade em silêncio dentro dos próprios carros — escutam rádio e a voz interna, incessante. isso ocorre em brasília, em pequim e em paris, em dacar.
imagino um gravador que captasse todas essas vozes silenciosas. mas depois desisto, não quero interferir no trabalho do bom deus.
às vezes me pergunto se foram gastos mais sangue ou mais tinta na história da humanidade.
acho que a resposta certa me esclareceria muitas coisas.
jorge luis borges tomou de empréstimo a emerson a ideia de que todos os escritores são a manifestação de um mesmo. “uma única pessoa redigiu todos os livros que há no mundo”, anotou emerson em homens representativos. jocosamente, atribui a unidade central que existe em todas as obras a um “único cavalheiro onisciente”.
digo apenas isso: quero os dez por cento dos direitos autorais dos dez maiores best-sellers na minha conta e quero para hoje.
o poeta ronaldo costa fernandes lança terça (22) à noite, no carpe diem, o livro memória dos porcos.
em geral introspectivo, o escritor também desafora, sabe que o mundo merece melhoras.
ao comentar as linhas tortas que deus escolhe para escrever certo, ele aponta:
deus deveria ter um caderno
de caligrafia para melhorar a letra.
tem outras coisas geniais por lá, mas essa aí bastou para me tirar o fôlego. me proponho a colaborar com a vaquinha que forneça a deus a caneta-tinteiro da foto.
se na hora de embarcar rumo ao desconhecido tivessem juntado dentro das naus não os soldados e marinheiros, mas todos os designers (de móveis, de tipos gráficos, arquitetos, paisagistas, ilustradores, pintores etc. etc.), o que teria acontecido ao novo mundo?
a timidez é a máscara do “não estou conseguindo me representar direito no momento, portanto vou representar o papel de pessoa que se constrange e não consegue ficar à vontade de jeito nenhum”.
é apenas um papel, no entanto, e um dos mais difíceis de fazer bem feito — o tímido sempre deixa transparecer que é diferente por trás da máscara. sozinho, não tem qualquer problema consigo. não é possível ser tímido para si mesmo. a timidez precisa de um outro para se manifestar.
a capacidade de atuação no cenário do cotidiano é incrível.
quando próximas de alguém a quem conhecem intimamente, as pessoas mostram do que são feitas. basta a presença de um estranho para começar a representação de um papel: de gente boa, de neurótico, de falastrão, sei lá eu que grande quantidade de papéis existem à espera de que alguém se invista deles e passe a desempenhá-los.
as pessoas são os melhores atores de si mesmas, o tempo todo mergulhadas em atuarem essa imagem que desejam projetar sobre os outros.
momento de tensão inevitável: cheguei provavelmente à metade de minha vida, as memórias do passado não se equivalem às do futuro.
penso no que fui, no que não realizei, no que pretendo.
tenho apenas essa garantia: atravesso tudo solitariamente convicto de que a solidão é a única coisa que um ser humano não consegue compartilhar com outro.
detestava dizer a verdade, fosse qual fosse a situação. principalmente quando jurava dizê-la e nada mais do que a ela.
“é por isso que o ser humano não avança”, criticava, “fica pensando só nessa merda da verdade…”
um só lê autores vivos, o outro só lê autores mortos.
toda noite se encontram no bar para discutir as diferenças.
era assim que eu fabricava pequenas cápsulas de felicidade, roubava com os olhos fragmentos da vida alheia. bastava um lapso na casa de alguém, um olhar sobre a foto no porta-retrato pousado na mesa da sala ou o desenho do tapete, um ladrilho fora de padrão ou o formato de uma cadeira, o som do prato contra o estanho da pia, tudo me estimulava para mergulhar numa vida que não fosse a minha.
então soube, é esse o trabalho do escritor, chafurdar as minúcias da vida dos outros, inventar tramas a partir dos detalhes, virar vendedor de impalpabilidades.
as pessoas não sabem o sentido de estarem vivas. o único que sabem é que morrerão. inventam o que fazer, para não pensar a respeito. amigos, trabalho, ocupações, uma festa para ir, outra para preparar, viagens, pesca à baleia, regras de etiqueta, banda de rock, um deus que garanta o conforto de que o corpo que morre é “apenas” a carcaça, um admirável mundo virtual.
ocupações. “estou ocupado”, dizem. “é uma semana cheia”, ou “vou olhar na minha agenda”. qualquer brecha de tempo entupida de atividade que desvie o curso do pensamento para outro assunto. mesmo os filósofos, debruçados sobre temas espinhosos, estão ocupados com artigos acadêmicos, ensaios com prazos, congressos para organizar.
há duas maneiras básicas de compreender a questão: ou você mergulha na angústia que o beco sem saída provoca, e trava; ou você se livra dessa angústia e mergulha na intensidade de estar vivo porque o fim é o beco sem saída.
logo, as pessoas se ocupam. não estão vivendo intensamente, mas pelos menos não estão travadas. ocupadas demais com as minúcias para isso, ótimo.
esquecem as horas mortas, porque elas lembrarão o fim (antecipadamente).
preciso me ocupar.
eram meus aquela espinha no nariz e o mistério insolúvel do mundo na mente. a primeira parte o espelho me anunciou de forma evidente. a segunda, deduzi da careta que meu rosto fez no reflexo.
estava indócil naquela manhã em que nuvens de chumbo se embaralhavam no horizonte enquanto um fogo-apagou lançava seguidos trinados graves, como se estivesse aquecendo a voz para um concerto que insistia em não começar.
podia ser só efeito colateral do uísque da noite anterior, mas as coisas em volta pareciam estar numa dança incontrolável diante dos meus olhos vacilantes. ou seria o fato de que eu tinha missão a cumprir e a vaga percepção de que ela e eu éramos terrivelmente incompatíveis?
acontece que não havia hipótese de nos divorciarmos no curto prazo, de modo que engoli uma aspirina, meio que olhando para o restante do conteúdo como quem imagina se não seria o caso ingerir mais, e abri a porta.
texto de escritor é carta para o futuro.
ele não sabe se os destinatários, que afinal desconhece, gostarão daquelas palavras. muito provavelmente, não haverá resposta.
mesmo assim, o autor obstina-se em cartas solitárias para o amanhã. sabe que desejar ter leitores é exorbitância. interlocutores, então, é o mesmo que torcer por milagre.
o escritor ficará tão sozinho quanto no momento em que se sentou para escrever. ele sabe de antemão.
ainda faz careta quando o chamam de esquisito.
como se já não houvesse extravagância demais neste mundo, aquele sujeito resolveu contribuir e mandou instalar um piano dentro do submarino.
à noite — ou a qualquer hora, pois nas profundezas oceânicas é sempre uma eterna noite — ele executava as músicas do repertório, que era extenso, para a tripulação satisfeita com a novidade.
era a homenagem da turma ao velho funcionário que se aposentava, depois de anos de trabalho útil para a companhia.
entre os presentes engraçados que recebeu, como um par de chinelas para descansar na praia, havia um de duplo sentido (não intencional). um apito que não fazia som. o sentido óbvio era dizer que ele devia relaxar, não precisa de som para atrair a atenção.
havia outro, entre melancólico e direto: ele não apita mais nada.
fingiu sorrir ao receber os presentes.
demoro muito a chegar aos lugares. no caminho, penso a respeito da felicidade que sentirei quando estiver lá.
entretanto, quando isso acontece e a euforia passa, me dou conta de que não pertenço àquele local, àquela gente, àquela cultura.
não sou de parte alguma, nem mesmo fico à vontade durante a viagem.
minha falta será parcamente sentida.
toda vez que dizem: “quer justiça? procure um advogado”, acho que estão de sacanagem com minha inocência.
perfeição é conceito humano e limitado.
suponho que deus, se existisse, riria com compaixão ao ouvir a palavra ser pronunciada.
era vesgo, mas antes de ser impedimento, usava a favor: dizia amar em dobro.
o método do teórico de literatura é separar um trecho do livro de algum autor, encontrar nele algo que entende ser importante, discorrer a respeito e depois generalizar para outros casos, sem admitir que o faz.
no alto do penhasco, um homem. visto a distância, mínimo.
de perto, o penhasco é ridículo frente às inquietações mentais.
por isso ele ri.
toda vez que entro numa feira de livros ou bienal ou festa literária sou tomado por espécie de choque: extrema felicidade e absoluto desespero.
muitos livros, olhar inteligente dos frequentadores, avalanche de informações.
quero ser mil, cada um a ler um texto diferente, eu o milésimo primeiro que amarra as pontas. mas impossível.
há livros demais, constato, entre esperançoso e desesperado.
por que o desejo de escrever?
escrever é caminhar sobre o abismo da página em branco, esticando a corda de palavras à frente, enquanto se equilibra de maneira precária.
há certas vidas vocacionadas para o malogro e com ele não foi diferente, embora tenha fingido em boa parte do caminho que as coisas estavam bem. a maioria das pessoas se especializou nesse tipo de fingimento e quando se dá conta do engano é quase sempre tarde demais: acontece que à brutalidade do real é preciso contrapor alguma coisa, ou sucumbir.
a vida inteira é uma fuga, negação da inevitabilidade da morte, enquanto todos estão sendo sugados em direção a ela, de maneira lenta e incontornável.
para evitar o desespero — tão inútil quanto a hipocrisia da felicidade febril —, finge-se que a vida, afinal, é ótima.
o músico anunciou que iria interpretar a sinfonia inconclusa de schubert, mas se deu conta de que não conseguia se lembrar das notas do início.
o estranho foi ninguém ter se dado conta de que uma sinfonia não pode ter sido composta para piano.
todo escritor está em luta contra a loucura, quando escreve.
escrever é o que mantém no ringue.
alguns perdem.
o prestigioso e nem um pouco suspeito instituto fora da baleia (ifb) acaba de anunciar os ganhadores do ii prêmio cachalote de literatura. o meu inédito homem no papel ali, entre sumidades, o que me deixa atônito e feliz. checa só a lista dos destaques abaixo e veja o post original em http://foradabaleia.tumblr.com/
— história do cabelo (alan pauls)
— luto e melancolia (sigmund freud)
— amor sem fim (ian mcewan)
— o filtro invisível (eli pariser)
— homem no papel (paulo paniago)
— o estrangeiro (albert camus)
— carta a d. (andré gorz)
— diário de oaxaca (oliver sacks)
os olhos dois faróis. em vez de apontar direção, mergulham para dentro de você. ela pergunta, intrigada, curiosa, sapeca e sorridente. quer saber, não para, pés inquietos, pés na estrada — via aérea — para aqui e ali.
o mundo começa em paris. ou termina. amélie caroline poulin da silva. o mundo é tango, em buenos aires, entre gardel e piazzolla, ao fundo. o mundo é coração e corpo, confundidos e entregues, a recuperar sabe-se lá de que indícios. o mundo é filme e ela, a estrela.
sorri, no aniversário, sopra vela, come bolo, ex-bailarina ainda dançarina. fazem shows em homenagem, presta homenagens sozinha ou a cavaleiro no passante, sorriso maroto também ele. os dois juntos têm nem dez anos, se somados. moleques. travessos.
ela, dois faróis. sabe tudo. o mundo é só extensão dos desejos.