tempo, tempo

foto | matthias heiderich

foto | matthias heiderich

 

 

ele pegou o relógio de pulso sobre a mesa de cabeceira e quebrou o vidro contra a quina da madeira. depois arrancou os ponteiros e aproximou o mecanismo do ouvido. continuava escutando o tique-taque incessante. então tornou a bater o relógio e ouviu o barulho das peças cedendo ao impacto. o relógio estava parado. ele se levantou e em seguida se virou na direção da janela. havia uma nuvem parada e ele a observou por alguns instantes, à espera de reconhecer o movimento, mas não foi possível. então acreditou que havia sido bem sucedido. por um microssegundo de autoengano soube que havia feito o tempo parar e nada mais avançaria, tudo no mesmo ponto para sempre. mas quando se dirigiu até o banheiro e verificou que precisava gastar tempo para percorrer certo espaço, entendeu que o problema era outro e o tempo continuava a fazer o trabalho. então ligou para o irmão e disse. pode me internar, admito, não estou bem. e se sentou no sofá, à espera dos enfermeiros que viriam buscá-lo.

 

aviso literário

aviso-importante

 

é com misto de orgulho tremendo e vergonha mal-disfarçada em falsa modéstia que anuncio a quem interessar possa que virei personagem literário, num conto de paulo renato souza cunha no blog tumblrístico fora da baleia. o endereço para chegar ao cujo é 
http://foradabaleia.tumblr.com/post/52991879396/paniago-esta-resfriado
. eu vou ali ler; o resto que espere.

 

anunciação

arte | chen han

arte | chen han

 

 

era preciso fingir que todo aquele amor que lhe era dedicado, aquela atenção especial, não lhe afetava e a verdade é que ele fingia bem, desfilava por entre as pessoas que lhe dirigiam elogios e deferências e sorrisos como se estivesse incólume. era o preço a pagar pela fama, mesmo que local — ele só era conhecido e admirado no bairro, sobretudo pela simpatia altissonante que transpirava, mas no fundo todos sabiam que era por causa do talento matemático que vinha se sobressaindo cada vez mais. ele sorria, distribuía apertos de mão e tapinhas nas costas, desmistificava a imagem de matemáticos como antissociais absolutos, perguntava pela saúde das esposas ou mães, conforme a ocasião, chamava a cada um pelo nome. só eu conseguia reparar que aquela fachada simpática escondia uma crise que galopava para alcançar dimensões catastróficas. mas eu estava impedido de dizer o que fosse — e de que adiantaria alertar as pessoas? elas precisavam ver com os próprios olhos, na hora mais adequada. o fato é que catástrofes têm agenda própria.

 

pedaladas

foto | aela labbe

foto | aela labbe

 

 

este é o fluxo do meu pensamento, o encadeamento de ideias que me ocorre enquanto pedalo de casa até meu ambiente de trabalho, o curto-circuito em que se transformou a minha vida (vista pelo lado de fora, sucesso relativo ou mesmo surpreendente, ninguém esperava que chegasse até aí etc.; vista de onde estou, o cume do fiasco bem sucedido), a tentativa, sempre ambiciosa e mais uma vez inútil, de encontrar uma posição no mundo, que me lança ao conforto, mas não é necessariamente confortável. suponho e deduzo que o conforto é um desconsolo. é preciso partir no rumo, uma vez mais, do elemento inquietante, além daquilo que é me imaginar sendo atropelado, ao lançar minha bicicleta na frente dos veículos que trafegam na contramão.

 

a economia das trocas amorosas

direções

 

 

jogos de soma zero, ela disse.

ele ergueu a sobrancelha.

os dois se beneficiam, insistiu ela.

sério?, ele duvidou.

não é como no pingue-pongue, ela explicou, um jogo de soma zero, um ganha, o outro perde.

hum, ele fez.

é, ela foi adiante. nada a abalava. nos jogos de soma zero, prosseguiu, ambos se dão bem.

ou ambos perdem, ele disse.

a vez dela de erguer a sobrancelha.

 

saudades fotográficas

pessoa-ryan-donato

 

 

a mãe fazia muita foto daquele filho, o pequeno projeto de futuro modelo. havia imagens pela casa toda e nas redes sociais, o menino ia sendo espalhado pelo mundo, um fantasma projetado. sorrindo, sério, cabelo grande, cabelo curto, toda oportunidade, cada dente perdido, a casca do machucado, tudo era compartilhado com quem quisesse ver. mas a mãe, um dia, cometeu esse crime que as mulheres (e de quebra todos os seres humanos) não conseguem evitar: morreu. teve um longo período de doença e tratamentos, as fotos desapareceram junto com a alegria que se perde com doenças fatais. então houve choro e luto e a vida um dia retomou o curso, como é de acontecer. mais que sentir falta da mãe, ele sentia saudade de ser fotografado, mas não admitiu nunca a quem quer que fosse. é dessas coisas que se leva para o túmulo, quando chegar a vez.

 

epistemologia da malandragem

foto | lidor wyssocky

foto | lidor wyssocky

 

 

não faço essas coisas por mal, ele disse, com um sorriso que parecia desmentir tudo. meu coração é puro, completou, a mão depositada sobre o peito, para confirmar o óbvio, ele não passava de um charlatão que devia convencer meia dúzia de pessoas. o meu não é puro, rebati, seco como um tiro. mas te digo isso, também não faço por mal, faço primeiro porque é necessário e depois porque gosto e se o que gosto é mau, azar de quem aprecia jogos de linguagem. eu estava inspirado e confesso que me orgulhei do meu discurso. depois mandei que lhe cortassem a mão, justo a que havia colocado sobre o coração. aquele gesto ele não repetiria mais, isso eu podia garantir.

 

desaforismos (segunda temporada): 22

penas-apenas

 

 

220. a maquiagem da mulher pensa na fantasia do homem.

221. refletir sobre o tempo, ou seja, postar-se no centro da loucura.

222. o coração que bate é um problema cardíaco.

223. no livro da vida o sujeito que comete suicídio é o que pulou rápido para a leitura da última página.

224. todas as juras de amor que escorreram pelo ralo são a prova de que ninguém deveria acreditar em eternidade — nem nas juras.

225. deus é muito senhor de si.

226. o aforista deseja a frase absoluta.

227. para o agente funerário, longevidade é mau negócio (temporário, por sorte).

228. pecado é escolha.

229. só os cretinos podem se permitir ser felizes.

 

teologia à hora do lanche

arte | cesar biojo

arte | cesar biojo

 

 

e o que precisa para a nossa redenção, quis saber o menino, depois que a mãe lhe explicou o significado da palavra. agir direito, ela respondeu, achando que com isso dava o assunto por encerrado. então, insistiu o menino, se a gente agir direito conserta as coisas, isso quer dizer que somos todos culpados de ter colocado o menino jesus pregado na cruz, né, mãe. de certa forma, tergiversou a mãe. mas é mais complicado do que isso, acrescentou, sem incluir que era complicado inclusive para que ela mesma compreendesse. se são todos culpados e têm o sangue sagrado nas mãos, não há gesto bom o suficiente que limpe, não há nada que redima, não faz qualquer sentido agir em direção às coisas boas, ela pensou, antes de perder a paciência. agora cala a boca e come seu lanche, disse. que hora esse menino escolhe para debater teologia, pensou, desconsolada.

 

homens e peixes

arte | fiddle oak

arte | fiddle oak

 

 

o peixe pulou do aquário e ficou contorcendo o corpo sobre o piso da sala, as guelras se abrindo inutilmente. em vez de ser piedoso e devolvê-lo à água, o dono do aquário ficou pensando a respeito das motivações do peixe para o gesto extremo, que tipo de inquietude lhe teria induzido ao salto suicida, em primeiro lugar.

 

editora

foto | lászló moholy-nagy

foto | lászló moholy-nagy

 

 

a editora se chamava index, homenagem à lista de livros proibidos, criada pela igreja católica, o index librorum prohibitorum. a editora progrediu, fazendo sucesso com a lista estabelecida por outros a partir de lançar todos os títulos que a estupidez humana havia relegado ao esquecimento.

 

quanto custa

foto | dirtyfromtherain

foto | dirtyfromtherain

 

 

“a pureza é um estado negativo e portanto contrário à natureza”

william faulkner — o som e a fúria

 

estão vendendo o paraíso por um preço bom. é sempre assim a conversa do vendedor, um preço bom. bom para quem? eu não confio no seu gosto para dizer o que é bom e o que não é. não conheço seus critérios, meu chapa. não me diga que um preço é bom, você me ofende. bom comparado com o quê? eu talvez pague um preço melhor para comprar o inferno do que pagaria pelo paraíso. pelo menos o inferno é agitado. aliás, deve ser por isso que o paraíso está à venda, é muito chato e comportado e nada dramático, por isso está sendo rifado, acertei? não quero o paraíso nem para troco, meu chapa, no que me diz respeito você pode ficar com ele todo para você.

 

por fim parou

cães-e-fusca

 

 

a vibração do relógio da torre da igreja permaneceu, mesmo depois que as badaladas pararam. a vibração é o chamado de deus, o padre tinha dito. ele sentia a vibração, mais que ouvia, mas estava cada vez mais distante do chamado, surdo para deus, surdo para o delírio coletivo disfarçado de boa fé e ações positivas. cada um por si, pensou, e um pouco de respeito não faz mal a ninguém, mas basta. a única vibração era a do relógio, a vibração do tempo, que ia parando (mas não o tempo) até cessar completamente.

 

construções inóspitas

arte | henry ossawa tanner

arte | henry ossawa tanner

 

 

era um homem de muita fé, muita. a fé, definia, aquele calor que lhe ardia por dentro e lhe dava a direção que devia tomar. a fé aquela voz que lhe determinava o que fazer. construir uma igreja linda e forte, custe o que custar. ele ouvia, o ardor brilhante no estômago. o sacrifício da inocente. ele ouvia, nenhum espaço para dúvida, sequer a mínima brecha. então um dia, acabrunhado no pátio da penitenciária, compreendeu, era ali que devia iniciar a construção da igreja, naquele vale de sombras perdidas. por isso tinha ido preso, o sacrifício da inocente era pretexto, não as penitências.

 

insinceridades eficazes

montanha

 

 

eu não me lembro, ele dizia, simplesmente não me lembro. todos sabíamos que era a mais desvairada mentira, mas seria inútil lançar isso na cara dele, só o tornaria mais aferrado àquelas palavras. a vida é essa dança estranha de concessão mútua de mentiras. não me lembro de jeito nenhum, ele insistia e nós, tão inconvincentes quanto ele (porque ele precisava saber que nós só estávamos mentindo para agradá-lo, ele merecia ver que também éramos mentirosos ruins), nós dizíamos, está tudo bem, nós entendemos, não se preocupe, entendemos perfeitamente.

 

desaforismos (segunda temporada): 21

foto | ralph gibson

foto | ralph gibson

 

 

210. consciência mantém o homem escravo da verdade.

211. os imbecis vivem ocupados.

212. pátria é outro nome para negócios.

213. maltrate o corpo; não há cicatrizes na alma.

214. aforismo: quanto menor, mais afiado.

215. o que hamlet queria, que sua mãe o escolhesse em vez de ao tio? o complexo de édipo deveria ter outro nome.

216. ser fiel a uma pessoa de cada vez é um tipo de infidelidade.

217. o casamento aprisiona o corpo (mas nem sempre), não a vontade — ou ambos se dobram e a rendição é completa.

218. o cavalo desembestado do ciúme não reage ao freio, só à espora.

219. não pretendo entender a mulher; basta a convivência.

 

de que adianta

arte | strazza guido

arte | strazza guido

 

 

ele passava a faca para os outros com cuidado, pelo cabo, conhecia de cor poemas e trechos de clássicos, visitava a itália à procura de museus e mulheres bonitas nos cafés e, quando estava lá, frequentava a ópera. aliás, bem possível que tenha sido um trecho da traviatta que cantarolava insistentemente nos dias mais recentes a última coisa que lhe ocorreu antes de morrer.

 

extravagâncias

fumaça

 

 

bebia e fumava de vez em quando e, em certas ocasiões cada vez mais frequentes, fazia ambas as coisas em excesso. quando a vida ficava pesada demais ou quando o trabalho ficava estressante ou quando ficava sem trabalho ou simplesmente ao olhar para a cara das pessoas e concluir que não as suportava mais. por ter insônia, por estar só, por tédio, por dormir demais, por preguiça, às vezes por conta do excesso de energia que não tinha para onde canalizar. beber demais, fumar demais, dizia, então dava de ombros, quem quer viver demais?

 

alguns amigos reunidos

foto | kari medig

foto | kari medig

 

 

a fogueira crepitava, o céu cheio de estrelas e uma lua cheia demais dava vontade de uivar. parecia que a qualquer momento uma daquelas estrelas cadentes que riscavam o alto ia desligar a lua, puf, de uma vez. mas não. os caras em volta da fogueira conversavam com lentidão, eram três, e passavam a garrafa de tequila um para o outro e o líquido evaporava com rapidez. havia um quarto sujeito, mas ele era a razão de haver fogueira, nem mesmo estava uma noite fria.

 

desaforismos (segunda temporada): 20

arte | jesús devia

arte | jesús devia

 

 

200. a vida se equilibra precária entre espera e interrupção.

201. vida, oscilações entre perder e encontrar o foco mental.

202. os detalhes precisam ser vistos sob microscópio.

203. são clientes que precisam ser fidelizados, não os amantes.

204. jornalistas, criaturas frívolas e cheias de receitas para consertar o mundo.

205. o que não se quer enxergar na morte é sua calma.

206. o terror e o êxtase são o cara ou coroa existencial.

207. no brasil, planejamentos nunca consideram o fato de que estão fadados a fracassar.

208. sátira é a verdade disfarçada pelo riso.

209. aforismo: fôlego longo, sentença curta.

 

amigos embalados

atada

 

 

começo a embalar meus amigos de papel para o transporte e me sinto sufocado em nome deles, comprimidos uns contra os outros. ali vão philip roth e enrique vila-matas na mesma caixa de papelão reforçado, talvez tenham algo a dizer um ao outro, embora nenhum se desvie sequer uma linha do próprio discurso. misturarei michel de montaigne com italo calvino para ver que samba é esse; georges perec estará ombro a ombro com thomas pynchon, quem sabe troquem ideias, talvez raios e trovões, veremos. karl kraus terá por companhia jorge luis borges e é possível que macedonio fernández se entenda com dona virginia woolf. meus amigos virarão miscelânia e eu me desespero sozinho, nem um jack daniel’s, nem um jack london por companhia. eu os perderei de vista quando os caras truculentos vierem carregá-los até outras prateleiras, minhas também, por sorte. estarei trêmulo e temeroso, quase crente pedindo a deus que não deixe o caminhão com meus amigos se acidentar e pegar fogo, rogarei ao motorista que pelo amor de seus filhos quintuplique os cuidados na curva, se for a vinte por hora é meu herói e pago dobrado. quando os desembalar na nova casa sorrirei diligentemente para cada um deles, um pedido constrangido de desculpa nos lábios. meus amigos, direi, perdão pelo transtorno, tomara que fiquemos por aqui um bom número de anos, na companhia uns dos outros, embora a minha pouco ou nada lhes diga. a de vocês, meus caros, é de suma importância.

 

como se não fosse

aviões

 

 

os sons vieram, subindo e entrando, invasivos. a sinfonia ininterrupta do cotidiano: uma sirene de ambulância que primeiro aumentou, depois diminuiu; um cão que ladrou tristemente; um pássaro que emitiu dois trinados no voo e se afastou; o barulho constante do ruído dos carros, uma mistura do motor e do contato das rodas com o asfalto, um tipo de ruído branco que lhe fez se lembrar da capa de um livro de don delillo. a capa era branca, as letras do título também e portanto quase invisíveis — a ideia que existe no conceito de ruído branco, de que está lá de modo tão contínuo que não é mais ouvido, portanto inaudível para o ouvido como o invisível é para o olho. o mundo tem esses pequenos ajustes, detalhes que às vezes escapam à atenção, o que está lá e mal é notado, o grande número de intervalos que serão enviados para os desvãos do esquecimento.

 

aviso prévio

arte | remi rebillard

arte | remi rebillard

 

 

ele foi se despedindo da vida de maneira lenta, o resplendor cedeu lugar para fantasmas que vieram visitar com um sorriso condescendente. não sabia que fantasmas sorriam, disse, de si para si. antecipação porque você estará conosco em breve, responderam. então é assim, ele prosseguiu, existem recados, avisos, sinais. olharam-no com outros olhos, que não existiam mais. já se despediu direito?, quiseram saber. soou como sugestão, que talvez fosse o caso acatar.

 

desaforismos (segunda temporada): 19

tulipas-lomográficas

 

 

190. memória fantasia o passado.

192. anonimato é uma forma de fantasmagoria.

193. o epíteto é um protótipo de título.

194. o tempo pode se dilatar e se tornar pastoso, grão-senhor das angústias e agonias pedestres.

195. amor é solidão extrema e a tentativa inútil de compartilhar.

196. deus é como o crime, só existe por decreto.

197. vida, jogo de esperas e negociação sempre insatisfatória em que vontades não serão respeitadas.

198. escrever para escavar.

199. aforismo vive de arranhar a superfície e de mergulhos na escuridão.

 

ilusões

cama

 

 

aquele sujeito estava convencido de que era um grande escritor e que o mundo tinha o direito de conhecer a sua importante obra, especializada numa quantidade considerável de assuntos diferentes. ele estava seguro de que isso só não estava acontecendo por causa de um complô articulado pelos próprios filhos, que o haviam internado naquela instituição para velhos doentes mentais com o intuito de esperar que morra, para então lançar a obra e embolsar, sozinhos, todos os lucros. “crápulas”, ele formula silenciosamente, enquanto os recebe com uma frieza impávida, nos fins de semana em que se dignam a visitá-lo. por trás, pelas costas dos filhos, tenta negociar o tráfico de papéis para fora dali, com intuito de que sejam enviados a alguma editora. nunca dá certo e ele teima em botar a culpa na rede de informantes sustentada pelos três filhos exploradores e ingratos. eles disseram a verdade a ele, certa vez, ou seja, que é desprovido de talento. mas ele sabe que isso é apenas parte do plano maquiavélico daqueles três patifes e a cada dia que passa come menos, porque teme que o próximo plano de seus meninos seja envenená-lo e acelerar o trabalho do destino.

 

a vida das teorias

foto | dirtyfromtherain

foto | dirtyfromtherain

 

 

ele pegou picareta e martelo e em seguida se pôs a demolir a teoria do sujeito. terminada a tarefa, pacientemente começou a levantar as paredes da própria teoria e imaginou ter usado material sólido o bastante para aguentar os primeiros ataques, pelo menos. mas sabe que nenhuma teoria resiste a uma boa picareta e um martelo sólido. é questão de tempo, ele sabe. então aguarda.

 

culinária e literatura

foto | dirtyfromtherain

foto | dirtyfromtherain

 

 

deixava bilhetes para a empregada toda manhã. a moça esperta chegava, recolhia o bilhete e ia ao mercado para comprar os ingredientes. enquanto fazia a faxina, ia aos poucos preparando o prato solicitado. ele tinha a gentileza de deixar anotado o tempo de preparo, antes de ir se refugiar no escritório, que era mantido fechado enquanto trabalhava no próximo livro. a moça era instruída a sempre comprar um pouco mais do que o necessário e levar consigo o que não tivesse sido usado. preparava pratos deliciosos para a própria família e, com o tempo, começou a vender refeições elaboradas que os fregueses adoravam. quando ele agradeceu a ela todo o apoio logístico que havia recebido, em público para um canal de televisão, à saída de uma cerimônia de entrega de um prêmio literário, ela já tinha se transformado na dona de um restaurante a cada dia mais reconhecido. era uma moça esperta que se transformou numa bem sucedida chef do próprio restaurante. sentia certa saudade dos tempos em que fazia faxinas matutinas depois do mercado e preparava almoços que não tinha permissão para ver serem consumidos. antes de ir embora, ao fim de cada manhã, dava batidas à porta dele e então se retirava. nunca soube quanto tempo depois de ir embora ele abria a porta para ir almoçar. nunca teve coragem de perguntar se a comida estava de seu agrado.

 

ansiedade e frustração

arte | pierre soulages

arte | pierre soulages

 

 

as pessoas estão ansiosas, essa é que é a verdade, para darem seus testemunhos de vida, contar o que viram, o que sentiram, o que comeram (daí a multiplicação espalhafatosa de imagens de seus pratos, fotografados por celulares com câmeras cada vez mais sofisticadas: os antropólogos e sociólogos do futuro poderão dizer o que se comia no início do século vinte e um com grande precisão). as pessoas buscam eco para as próprias inquietações, querem terapeutas instantâneos que lhes chancelem os comportamentos estapafúrdios — ou triviais, na talvez maioria dos casos. as pessoas sabem o que querem, embora críticos digam o contrário, que todos foram simplesmente adestrados para querer essas coisas, todo o campo da publicidade está aí para provar. as pessoas sabem o que querem e nem sempre são coisas, apenas não sabem o que fazer para conseguir.

 

muita informação

roupas-dependuradas

 

 

as notícias não paravam de acontecer, por mais angustiado que o jornalista ficasse com o fluxo constante. ele tinha muita dificuldade de se desligar e começou a ter insônia. não queria perder o movimento do mundo, os transtornos, crises, anúncios, denúncias, coroações, deposições, matanças, estava obcecado com a maravilha que parecia aquele movimento sem fim. então um dia se deu conta de que os acontecimentos não dependiam dele para continuar acontecendo, não careciam suas preocupações ou testemunho. então se retirou para a beira de um lago e continua a reler os clássicos que mais lhe agradam.

 

o rosto tranquilo da morte

corda

 

 

não gosto da morte, como qualquer pessoa imagino que não goste, mas não talvez pelos mesmos motivos. não gosto da morte porque tudo nela remete a um ritual, a começar pelo ritual civilizado de manter o cadáver a distância e sobretudo oculto. a morte é parada, o que me faz pensar que todo ritual celebra a cessação do movimento. pode ser por isso que os rituais gostem tanto das repetições. a morte é mantida a distância — ou pelo menos o que restou dela, o corpo, o vestígio de que a morte existe e alcançará implacavelmente a todos — porque persiste um medo não mencionado de que a morte é algo contagiosa, tê-la por perto significa correr o risco de contrair mais rapidamente os sintomas que ela prolifera. ou por que outro motivo os amigos e parentes dos agentes funerários pedem que se limpem, que se higienizem, antes de lhes apertar a mão ou antes que entrem em casa depois de uma jornada de trabalho em que lidaram com alguns cadáveres? não gosto da morte porque não gosto de rituais. não gosto de rituais porque, por mais ciente que esteja de que que a vida é composta sobretudo de repetições (lavar cabelo, escovar dentes, mastigar, dormir, defecar, fazer sexo), sinto necessidade de apostar na quantidade de improviso que a vida tem, uma capacidade de fazer o nunca antes tentado e isso acontecerá pela primeira vez. vida é surpresa, enquanto a morte está parada e inevitável, ela sim, a verdadeira todo poderosa. a morte é deus, não a vida. a vida é humana, precária, ávida, intensa. o tédio, quando houver, é treino para a brutalidade acachapante da morte. vida é inauguração. a morte é o único valor realmente democrático, a vida é aristocrática. a começar pela corrida dos espermatozoides e pela seleção ovular rigorosa, com seu orifício altamente seletivo. na morte, a gravidade começa a se manifestar e ao cadáver será dada uma das duas destinações: será encaixotado e enterrado (e freud dirá para “enterrar” o assunto ao se fazer o luto, ou seja, será preciso tirar do alcance dos olhos para não se remoer, mas só depois de se certificar de que o corpo esteve diante dos olhos, para que se tenha certeza de que o assunto pode começar a ser encerrado, arquivado, enterrado) ou será cremado, para que volte logo ao estágio do pó, afinal a mesma destinação do corpo encaixotado, apenas neste último caso o processo se dará mais lentamente. mas atenção: a vida ausente do corpo não significa ausência de vida. o cadáver será atacado por dentro por bactérias de decomposição, muito vivas todas elas e dependentes desta carne morta para perpetuar a própria sobrevivência. quando mortas, as bactérias terão bactérias ainda menores para consumi-las? como é o pós-vida desses seres tão diminutos? o que o humano consome em vida ao ingerir a carne morta de animais será retribuído um dia, quando estiver morto, quando terá as carnes mortas também consumidas. é o ciclo da morte, não da vida. a morte é o anúncio prévio de que o improviso terá fim, de que o precário não pode prevalecer, de que a vida tem os dias contados e não perde por esperar.

 

sentidos que se perdem

escovão

 

 

os sentidos não se vão de uma vez, não fazem greve de súbito para serem mais bem tratados. eles se vão aos poucos, sorrateiramente, quando seus donos não estão percebendo. o paladar arrefece, culpa talvez do olfato que já começou a partir quando ninguém estava olhando. quando se dá conta, o sujeito está pedindo para o interlocutor falar de novo, ou mais alto, e quando procura um médico tudo o que ele pode prescrever é um paliativo. trata-se de uma longa despedida, a elaborada preparação para o momento em que você os perderá a todos, inclusive o sentido de si mesmo.

 

de onde vêm as histórias

tartaruga

 

 

“preste atenção aos detalhes”, o escritor disse. “o que você vê quando olha para os detalhes?” ergueu apenas uma das sobrancelhas, ou seja, era sinal de que estava provocando, desejando que o colega o surpreendesse com a resposta. aquele, por exemplo, era um detalhe, mas do tipo que é melhor não comentar, porque se o escritor soubesse que estava sendo observado daquela maneira e podia ter o rosto lido, certamente ia parar de demonstrar aqueles sinais e eles eram importantes para compreender como ele se expressava. “os detalhes contam muito na história”, prosseguiu. uma história era a perfeita mistura entre um fundo arquetípico e uma sucessão de detalhes bem amarrados. o fundo precisava ser denso; os detalhes, ajustados numa sequência bem arregimentada. “é disso que se extraem as melhores histórias, desse núcleo quente que consegue juntar as duas partes.” sabia do que estava falando quando mencionou o tal calor do núcleo: havia sido derrotado várias vezes no tatame da vida, aprendendo na trajetória que é preciso antecipar a queda, vivê-la preventivamente para que ela não doa tanto quando estiver ocorrendo. da queda encontrar a força para se reerguer. além de prestar atenção extra ao poder dos detalhes, aos fiapos de histórias que contam. então amalgamar o conjunto no calor protéico do fundo e eis tudo.

 

desaforismos (segunda temporada): 18

gansos

 

 

180. o filtro da voz às vezes não funciona e ele diz o que realmente pensa. ainda bem que é só às vezes.

181. não é a felicidade de ter algum talento reconhecido que me emociona. é ter a certeza de que serei uma decepção em algum momento futuro. isso me emociona mais.

182. a língua, usada para mentir gentilezas consistentes, de modo a permitir que as relações humanas prossigam.

183. os mal-entendidos são os curto-circuitos da língua. revelam o quanto ela é incapaz de dizer realmente.

184. sempre ensinaram a desconfiar do demônio nas vozes angelicais, mas o que dizer dos anjos que se disfarçam nas vozes demoníacas?

185. a vida está supervalorizada, mas o fato é que ela te mata no fim.

186. um bom poeta representa uma ameaça sólida para a mente.

187. leitura é um segredo explícito.

188. deus é um mal necessário.

189. deus é o relógio cinco minutos adiantado, o autoengano que ajuda a atravessar o dia ou a vida.

 

entanto coça

arte | sarah fawcett

arte | sarah fawcett

 

 

por sorte, ele estava com mãos e pés amarrados. o corpo formava, desse jeito, o desenho de um x, braços e pernas espalhados sobre a plataforma. a coceira na perna, na parte de baixo, era mais intensa, por um momento, do que o medo de morrer, que afinal era onde deveria estar concentrado o terror. mas a coceira parecia pior e mais urgente do que a faca que lhe penetraria o peito daí a pouco, supostamente para acalmar a ira dos deuses, na verdade para satisfazer a sede de alguns humanos pelo sangue, pelo assassinato que se abriga sob a chancela da autoridade do estado. pelo menos morrer lhe aplacaria a coceira, chegou a pensar.

 

a cidade e eu

roda-gigante

 

 

eu olho para o mapa da cidade como se fosse um general em campanha, preparando o próximo ataque das tropas. no entanto, sempre penso nas diferenças entre o que o mapa me mostra e a trajetória que faço a pé até chegar a meu destino. há um mapa mental que se grava na minha cabeça — tantas ruas nessa direção, depois viro à esquerda, caminho mais duas e, no meio do quarteirão está o lugar aonde pretendo ir. o que vejo no caminho são prédios, lojas, pessoas na calçada a se desviar de mim ou eu delas, os pássaros apoiados nas marquises, os pedaços de nuvens e de céu, os descascados no asfalto, as cores esmaecidas e as pronunciadas. essa cidade que me recebe como turista e não me conhece, essa cidade onde sou um perfeito anônimo (só um pouco pior do que em minha cidade, onde um punhado de gente me conhece). depois penso no quanto eu me equivoco toda vez que me refiro a minha cidade, pois eu não a tenho, na mesma medida em que ela não me tem. estamos aqui temporariamente e ela sobreviverá a mim, tem essa enorme vantagem a qual nem sabe que desfruta. mas isso enquanto estiver vivo e estiver nela, porque faço essas viagens, provoco essas pequenas traições, visito as concorrentes e me admiro com ruas, pessoas, livrarias, pássaros e sobretudo com a eficiência e com a discrepância entre o que os mapas me mostram e o que a as ruas de fato contêm.

 

inadequado, humilhado, com raiva

gasolina

 

 

sinto-me um inútil toda vez que preciso preencher esses documentos. eles são a prova concreta da minha inadequação para permanecer neste planeta, seguindo essa fila de regras estúpidas criadas para enquadrar todo mundo dentro da mesma categoria indistinta de otário. no campo nome eu já sinto completamente afrontado. quantas vezes tive que escrever ou digitar num teclado as letras que formam o meu nome, um quinquilhão, no mínimo. toda vez, a mesma sensação de que estou chamado de ridículo em algum lugar. alguém ri da minha cara quando começo a escrever as primeiras letras, está às gargalhadas quando termino. quantas vezes mais terei que preencher esse campo nos incontáveis formulários que me esperam no futuro. seria melhor morrer de uma vez. “cansei de preencher meu nome em formulários”, diria o bilhete de despedida. “a vida não pode ser só isso, mas não soube fazer diferente.”

 

distrações terríveis

foto | can dagarslani

foto | can dagarslani

 

 

eram duas correspondências diferentes que precisavam ser enviadas — as condolências de um funeral e as congratulações para um casamento. na hora de colocar no envelope, sabe-se lá motivado por que demônio perverso, ele se distraiu e trocou os conteúdos. aceitaram de ambas as partes o seu pedido de desculpas, quando ele procurou esclarecer o que tinha acontecido, mas nenhum dos dois segmentos de fato o perdoou pelo mau gosto da distração.

 

desaforismos (segunda temporada): 17

foto | cathrin schulz

foto | cathrin schulz

 

 

170. arte autêntica: privilégio e maldição.

171. também os detalhes precisam ser universais, ou serão segredos.

172. o coração é um bandido simpático.

173. a morte zera tudo.

174. tendo dado aos humanos o presente que não pode conceder a si — a mortalidade —, deus retirou-se para os confins do universo, onde não é encontrado.

175. a palavra é a lâmina mais afiada para o coração.

176. toda cidade é utopia, um impraticável em ângulos e formas reais.

177. brasília é uma ideia habitável.

178. na sala de jantar, o homem sentado tem a cabeça entre as mãos. a ausência da amada lhe pesa, de um modo diferente do que pesaria se ela estivesse presente.

179. é necessário que isso seja feito, mas não é o que quero fazer. quanto da vida é baseado nesse princípio? talvez quase toda ela.

 

conflitos insolúveis

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“as formigas também nos olham de baixo”

lydia davis — tipos de perturbação

 

não havia o que ele nos dissesse a que prestássemos atenção, aquele nosso parente. era tão insignificante sua opinião, imaginávamos, do alto de nossa prepotência de parentes bem-sucedidos (todos endividados, incapazes de manter matrimônios, alguns que haviam batido nas esposas, vários alcoólatras irrecuperáveis), que sequer nos dávamos o trabalho de escutar. “‘ta, tá”, resmungávamos com impaciência e a cabeça aflita, em sua direção, quando ele queria nos dizer algo, e logo estávamos conversando com outra pessoa. a nossa indiferença se viu forçada a se transformar em outra coisa quando o corpo dele apareceu dependurado numa corda. no bilhete de despedida, sugeriu que o descaso familiar — e vários nomes específicos foram mencionados, inclusive o meu — teria sido o gatilho, mas esse texto não existe mais, demos jeito de sumir com ele. não podemos sumir é com os pensamentos fantasmas que nos restaram e que são acionados de novo toda vez que nos encontramos e nos olhamos nos olhos uns dos outros.

 

rabugens da idade

foto | maleonn

foto | maleonn

 

 

minha avó sente um prazer secreto com o fato de que está cada vez mais rabugenta. ela se vale da liberdade que os anos e as rugas lhe conferem e capricha. vocifera, resmunga pelos cantos, bufa, reclama que está cansada de viver (secretamente manifesto minha vontade de lhe ajudar neste pormenor), briga por qualquer coisa com os netos e os filhos, os vizinhos, com apresentadores de televisão e locutores de rádio, com o tempo em geral e até mesmo, ultimamente, com deus. mas no fundo, eu sei, ela se diverte com nossos comentários indispostos a respeito de como ela está ficando insuportável. é um jogo de xadrez familiar de maus humores, mas a experiência de minha avó faz dela a campeã.

 

pensamentos esparsos

arte | vernon fisher

arte | vernon fisher

 

 

podia pensar qualquer coisa, porque sempre se pode. então pensou: “estou aqui neste lugar, escuto estas palavras e vejo essas pessoas que também escutam, prestam atenção e depois não mais, distraídas por celulares, laptops, tablets, esse chamado do mundo exterior, a pulsação da vida?, o labirinto das cidades, os rumores das línguas que o mundo fala, ou pensa que fala”. cresce um dente dentro do outro, ele ouviu, quando na verdade outra coisa foi dita, talvez apenas que algo estava dentro de outro algo. o tecido das cidades, o fio invisível das trajetórias pré-moldadas — o fio do meio fio, a direção, contida, que ele propõe. toda cidade, um minotauro e uma esfinge a pedir decifração. toda cidade se desenrola no tempo, migrante de si mesma, em expansão. o mapa diante dele era igual o contorno das costas de uma bela mulher. ele estava ali, pensando, bestamente, e assim o dia chegou aos poucos ao fim e depois ele tinha um compromisso e pensou em outra coisa.