CONTÍCULOS (62) Morrer e ser esquecido

 

 

Você pode se interessar pelas pessoas o quanto quiser, realmente demonstrar que se importa com sentimentos, emoções, opiniões alheias, você pode se tornar o imperador do altruísmo e se cercar de um número crescente e considerável de amigos.

Nada disso importa ou adianta quando você tiver que virar as costas para tudo e todos e encarar — totalmente só — a morte.

Não vai adiantar dizer vivi isso e aquilo, juntei um monte de amigos e levei uma vida animada, porque é hora de liquidar a fatura.

Eles vão chorar por você, prestar homenagens, erguer estátuas, criar prêmios com seu nome, mas eventualmente vão acabar te esquecendo e a vida vai seguir e você continuará morto para sempre. Morto e esquecido.

 

 

— Paulo Paniago

 

Punição para o virtuoso

 

 

Num livro de Margaret Atwood que comecei a ler para fazer o projeto Escritores escrevem, há uma anotação interessante a respeito dos motivos dos escritores para escrever. O livro dela se chama On Writers and Writing, algo como Sobre escritores e escrita.* Na introdução, ela menciona os motivos que foi recolhendo entre escritores de várias épocas, em resposta a uma das três questões que julga que são fundamentais de se constar numa investigação dessa natureza: Para quem você escreve? Por que você escreve? De onde vem?

A compilação que ela faz se concentra apenas num aspecto, o do motivo. O mais divertido da longa lista que ela faz me parece ser o que considera a ironia de um marquês de Sade. Ela lista um motivo de alguém: Para recompensar o virtuoso e punir o culpado, antes de fazer o que chama de defesa Marquês de Sade, usada pelos irônicos, que é inverter a ordem.

Um bom motivo para escrever, de acordo com a ironia de Atwood: recompensar o culpado e punir o virtuoso.

Mas ao fim do prefácio, quando a coisa se torna mais séria, ela fala das muitas metáforas usadas pelos escritores para mencionar o ato de entrar vendado num labirinto, ou com uma lanterna num quarto escuro (essa é a explicação de Virginia Woolf: iluminar o que já existe lá dentro, veja bem).

Atwood menciona uma lembrança de ter ouvido um estudante de medicina lhe dizer há quarenta anos que é escuro dentro do corpo humano. Em seguida, ela escreve o seguinte: “Possivelmente, então, escrever tem a ver com escuridão, e um desejo ou talvez uma compulsão de penetrá-la, e, com sorte, iluminá-la, e trazer algo de volta para a luz”.

Uma boa metáfora para a literatura é vê-la como cavalo. Você o vê ao longe, na fotografia, ou projetado num filme.

Para alguns, o cavalo está próximo.

A literatura é um cavalo selvagem a correr desembestado por um campo aberto. Vê-lo ao longe pode ser bonito e ter exuberância, mas a verdade é que ele está desembestado. Você pode se concentrar no movimento, nas cores, imaginar como seria cavalgar esse cavalo.

James Joyce é o sujeito que está montado, segura a crina e se equilibra no dorso. Ele também não sabe o que é ser cavalo — mas está bem mais perto do que a maioria de nós.

 

* Há uma edição no Brasil, pela Rocco, com o título Negociando com os mortos

 

— Paulo Paniago

Dar motivos para escrever

 

Entender por que os escritores escrevem é uma tarefa difícil, talvez impossível de ser realizada. Mas ela continua a ser tentada, de maneira incessante. Sobretudo por, obviamente, escritores. Eles escrevem, por que não escrever a respeito dos próprios processos e dos que são usados pelos colegas? Eles escrevem a respeito de si mesmos e dos demais.

Talvez agora, quando os escritores parecem o mais próximo da extinção, a tarefa se torne ainda mais urgente e necessária, ou pelo menos mais exigente. Eu mesmo, embora não seja escritor nem nada, pensei em escrever a respeito do assunto e comecei a tomar notas para um livro a que chamei, pelo menos em termos de título de trabalho, Escritores escrevem. Ele seria um dos títulos de uma série de não ficção a que chamei Infinitos Literários.

Cada título deve abordar um tema específico da literatura com um viés muito próprio que vou tentar imprimir. Escrevi apenas o primeiro dos títulos até o fim, Literatura é invenção. A respeito do poder inventivo, criativo, que deve ser uma das linhas de força da literatura. Os demais ficaram pelo caminho, em forma de anotações, inclusive o livro a respeito dos motivos pelos quais os escritores escrevem.

O que me faz falta para levar a bom termo um projeto como esse é a falta de capacidade para produzir sistematização cuidadosa. Nesse momento da minha vida, estou bem mais interessado em me dedicar à ficção do que a textos de não ficção, embora seja justamente nessa categoria que entraria este texto aqui que produzo de maneira lenta e gradual e que ainda deve me tomar muitos anos pela frente, se é que não vou abandonar a ideia antes disso.

 

— Paulo Paniago 

Entre o nada e coisa alguma

 

 

Reli há pouco um trecho de Animal tropical, do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, por conta de um projeto literário em que estive envolvido.

É um livro curioso, pontuado por aquela linguagem que Gutiérrez costuma usar, algo desabusada, um tanto desabrida. Num determinado trecho, ele menciona a diferença entre um escritor europeu, hipotético, está falando de maneira genérica, que escreve da perspectiva de certo cansaço e exaustão, de sedimentação que a história da Europa lhe proporcionou e a todos os demais na mesma situação.

Em seguida compara com a própria perspectiva de escritor latino-americano. Ele se encontra embebido numa cultura vertiginosa, vibrante e jovem, em comparação com a outra. “Pertenço a uma sociedade efervescente, que convulsiona, com um futuro absolutamente incerto e imprevisível”, anota Gutiérrez. Penso que está certo, inclusive a previsão de que nada se pode prever e que alcança a literatura que ele mesmo exerce, e que não me parece que sobreviverá, porque falta a ela algo além da linguagem exacerbada, despudorada, que ele utiliza. Como consequência dessa imprevisibilidade, ele continua, “minha vida é uma perpétua experimentação entre o nada e o nada”.

Isso eu considero potente e diz muito a respeito da condição de escritor latino-americano, pendurado entre o nada e coisa nenhuma, com um abismo no meio. E tudo isso, mergulhado e embebido em exuberância tropical, em efervescência convulsa.

Livro concluído (e férias)

Com a publicação da narrativa de número 80, o blog encerra as histórias que compõem o livro Subterrâneos. É chegada a hora de tirar umas férias, portanto. Diga-se de passagem, o autor está envolvido com a escrita de um romance, de modo que férias é modo de dizer um eufemismo. Mas o blog talvez volte a qualquer momento com alguma novidade. Espero que tenham gostado. Até qualquer hora. Abraços.

 

80. O grande metrô da vida

Imagem | Andrew Wyeth

 

Existe esse aspecto curioso na história das pessoas que andam de metrô. Cada uma delas tem uma narrativa pessoal interessante, viveu um momento de tensão, de alegria imensa, de terror ou tragédia, de superação, férias maravilhosas certa vez, mudança radical de profissão ou de emprego que valeria a pena mencionar e poderia servir de incentivo a diversas outras. Essas pessoas conviveram com amigos e familiares, com quem viajaram, saíram de férias, passaram bastante tempo juntas, estimulando uns aos outros com o próprio exemplo ou simplesmente com as aventuras que atravessaram em conjunto. As narrativas se multiplicam e se esparramam para todos os lados nas vidas humanas. No entanto, basta que as pessoas entrem num vagão de metrô para que fiquem quietas, para que nada partilhem umas com as outras, para que silenciem as histórias mais interessantes e mais pessoais, em vez de ficarem tagarelando a respeito delas para Deus e todo mundo, na esperança de que aquilo se multiplique. Ninguém age de modo natural no metrô, todo mundo finge ser o mais impessoal possível, tornam-se todos pequenos robôs calados que se dirigem a algum lugar programado previamente, no momento em que saíram de casa, o olhar perdido no horizonte, mergulhados todos nos próprios pensamentos, que tentam fingir para os outros que são profundos e inquietantes, de onde a cara correspondente ensaiada e agora posta em prática. Não é o rosto que apresentam no churrasco ou próximo à piscina, não é o rosto que usam para a festa, jamais aquele que colocam quando saem para dançar. É um rosto vago, um rosto de ser pensante, como se o metrô transformasse todos os passageiros instantânea e subitamente em filósofos, a resolver os principais questionamentos existenciais já dispostos. Somos todos passageiros na verdade é do grande metrô da vida, no entanto basta que estejamos ao lado de desconhecidos para nos contermos, forjarmos silêncios, maneirarmos no gestual, que fica extremamente econômico. A civilização urbana acontece ali, no metrô, no comedimento de que todos se investem de maneira instantânea. Claro que existem vândalos, claro que existem animais desembestados que depredam ou ameaçam os humanos pacíficos, mas eles em geral são exceções, e em certo sentido, ainda bem. Sinto falta, no entanto, de mais conversações, de gente que virasse para um estranho e lhe contasse um fato pessoal marcante, sinto falta de entendermos todos que o metrô poderia ser a grande sala de estar da vida agitada das metrópoles e como tal deveria ser aproveitado. A partir de hoje, parei de inventar histórias a respeito das outras pessoas. Vou passar a cumprimentá-las com um sorriso e perguntar se têm algum relato interessante para mim. Se não tiverem, eu contarei algo meu, para criar um incentivo. Vamos ver aonde isso vai nos levar.