CONTÍCULOS (151) Aquilo que não querem saber

 

 

Numa entrevista de emprego, a pergunta: o que te faz levantar da cama de manhã. Implícita, a sugestão para que o candidato minta, fale de sonhos, da vontade de mudar o mundo, qualquer bobagem elevada que as rotinas produtivas da companhia tratarão de dissipar em dois tempos.

Quando, por exemplo, o candidato responde de maneira pragmática e pedestre — a vontade de fazer xixi e saber que depois vou tomar café —, é evidente que não receberá nem o telefonema que a concede, nem a vaga.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (150) Motivos para se mexer

 

 

O que me move é sempre o que falta.

O sono a fome o cansaço o exagero o beijo o abraço a miséria a matéria o querer saber o odor putrefato o atraso a recompensa a sede o básico o avançado que passa pelo intermédio o começo e o fim o fato o semáforo o ainda não o não só o então vamos vamos é preciso seguir adiante que atrás vem gente.

 

 

— Paulo Paniago

 

CONTÍCULOS (148) Qualquer semelhança

 

 

Como se fosse um extraterrestre, desconectado dos meus dessemelhantes, julguei-me inumano, pós-humano, desumano. Meu coração puro pó, zero de solidariedade. Podiam me eleger representante do descaso, me dar medalha e salário, depois me esquecer num canto.

 

 

— Paulo Paniago