A têmpera da vida

Arte | Eckart Hahn
Arte | Eckart Hahn

 

 

Costumava ter os nervos expostos sensíveis a qualquer brisa; o mais leve rumor do ar um sismógrafo das emoções apontado para o mundo. As lágrimas portanto brotavam feito rio e devo ter contribuído para o volume dos oceanos. Disseram-me a escolha é sua faça como quiser mas saiba que sofrerá consequências. A escolha era minha ou eu não tinha escolha é tudo questão de ângulo. Minha sobrevivência nos intervalos evitando conflitos escondendo-me de mim recusando recuando acossado, uma formação com especialidade em toda sorte de covardias. Abstenções recusas encolhas observações ruminâncias ponderações apartidarismo. Vocifero em voz baixa. Desço os olhos. Não digo nem que sim nem que não às vezes nem digo. O resmungo é um mastigar perpétuo do arsenal de recusas mas tive que aceitar muita coisa, havia fila de sapos à espera de serem engolidos e segundo consta e ficou registrado a escolha era minha bem como as consequências que se seguem. Agora é tempo de pesar e medir o que decidi o que releguei quanto custou o que arrecadei; na balança os pratos se desequilibram penso muito a respeito do que pensei do que me movia então e afinal quando ouvi dizerem que a escolha é sua é minha e faço dela o que quiser. O medo era meu, veio na bagagem ou eu o ouvi nas entrelinhas e intervalos de quando disseram que sofreria as consequências. Provavelmente concluirei tarde demais que não soube fazer as melhores escolhas nem sequer administrei bem aquelas que afinal me couberam. Serei daqueles velhos loucos que saltam de paraquedas tentam recuperar o tempo perdido com tempero extra de filme de ação. Um velho maluquete que se perde no deserto ou se afoga atrás do tesouro não lê jornal na praça enquanto toma sol nem oferece sorvete aos netos antes do almoço. Um velho preso por porte de drogas que passa seis meses numa volta ao mundo ou um ano ou dois ou dez um velho que se perde para finalmente se encontrar. Sobretudo que não resmungou nunca mais.

 

Aviso de encerramento

megafoneO blog desaforos.com deixará de existir esta semana, após a última publicação, na terça, dia 6. Foram quase seis anos e muitos posts, narrativas, micronarrativas, aforismos, poemas, provocações, ensaios etc. O endereço será desativado na sexta (o conteúdo talvez migre para o velho desaforos.wordpress.com, mas não será mais atualizado).

Agradeço imensamente os leitores que leram, comentaram, apreciaram, criticaram, curtiram e tornaram esta uma experiência que julgo ter sido consistente. A interação foi um grande motor do projeto, creiam.

Paro o blog, mas não paro de escrever. Tenho, pelas minhas contas, sete livros prontos (nove, se contar dois romances que não tenho a menor pretensão de ver publicados), outros que poderiam ficar prontos em pouco tempo, alguns em processo de maturação e vários futuros projetos. Se tudo der certo, ainda este ano lanço alguma coisa, nem que seja por conta própria.

A literatura é tudo, embora tenha ouvido dizer que existe um negócio chamado vida que disseram ser muito interessante.

Até qualquer hora.

 

Por afogamento

casca

 

 

Alguém se afoga

entre peixes mercuriais

abandona-se à corrente

e não sei se reza no último segundo

se se entrega ou resiste

se finge ou lamenta

se sente muito e relembra

uma tarde remota

numa praça ao sol

de mãos dadas com a mãe

o coração tão grande

que mal cabia no peito

 

Uma tarde de foto

de doce de emoção

estampada para sempre

— agora e na hora de nossa morte —

na moldura da memória

de todos os tempos

 

Os respingos da ressaca do mar

salgados grudentos

a morte é um temperamento

que experimento todo dia

ela respira num outro ritmo e só

 

Os peixes se alimentam do corpo

depois também serão alimento

desse canibalismo ignorante

sorridente saudável cheio de ômega três

e triglicerídeos

 

É tudo parte do mesmo movimento

alguém diz e sorri

 

Manter coerência

Imagem | Elena Arcangeli
Imagem | Elena Arcangeli

 

 

A ele sucedeu de escrever várias histórias — dois romances, cinco novelas, vinte e nove contos — cujo tema era o suicídio. No começo, os amigos se preocupavam. Não vá você imitar os personagens, advertiam. Ele ria, não se preocupem, replicava, não pretendo. Mas enquanto os amigos seguiram a recomendação e pararam de pensar no assunto, a crítica por sua vez não lhe poupou a redundância temática, a reiteração obsessiva, o excesso de “leitura focada”, que foi como traduziram a expressão para indicar uma vertente teórica de abordagem literária. Há limites para as obsessões, escreveu um deles, numa revista muito conhecida. No bilhete de despedida, que os jornais publicaram com grande estardalhaço, ele menciona a questão de manter a coerência, mas muita gente achou que ele queria somente atrair a atenção para a obra, que andava caindo em esquecimento.

 

Cautela, cautela

Fotos | Jan Zimmerman
Fotos | Jan Zimmerman

 

 

Essa coisa da alegria ainda vai dar muito certo, ela disse, um sorriso tão lindo quanto manhã de primavera tropical. Estávamos nas nuvens, pequenas ilhas de expectativa cercadas de avião por todos os lados, de volta ao país natal depois de anos de exílio não forçado em que nos submetemos a coisas demais para no fim redundarmos em fracasso. Renovação de esperanças parece ser um dos esportes preferidos dos terráqueos, de modo que ali estávamos, nos embriagando da coisa na ambição tola de não termos ressaca. Foi nesse momento que Estela soltou a pérola, essa coisa da alegria, ela disse, embora soubesse que eu não tinha qualquer paciência para frases iniciadas com “essa coisa de”. Era decretar minha morte antecipada. Estela, no entanto. Esperançosa renitente — a despeito dos avisos da realidade, todos cumpridos à risca: de mim não há como escapar; nem de mim, nem de minha brutalidade —, Estela parecia agourar a nossa volta. Quando vi os guardas fardados conversando com os oficiais da alfândega e apontando o dedo em nossa direção, não tive mais dúvidas de que Estela estava muito, mas muito errada.

 

Seria, não foi

folha-mão

 

 

I

 

Viraria fazendeiro

engenheiro enciclopedista

geógrafo astronauta

viraria chef na França

tipógrafo tecelão

um futuro de bifurcações

a se desdobrar em infinitos

Padre bispo cardeal papa

rei polícia ladrão

poeta marceneiro gênio

pensador revolucionário presidente

viajante equilibrista

dono do elefante e do circo

a traquitana do colecionador

a bússola das emoções

cinco mil filhos

dez mil amantes

pirata pipoqueiro não

nem lanterninha

era grande o sonho

sem limite sobretudo

ia até a lua e voltava

antes de inventarem o celular

 

 

II

 

Virei pouco quase nada

nem mesmo virei ainda virá

cozinheiro lavador de pratos

lixeiro faxineiro

subalterno suburbano

a cerveja quente

a mulher murcha

o filho banguela

não foi digno nem deu certo

a realidade insiste em me afrontar

todo dia eu madrugo e envelheço em breve

falhei miseravelmente

não tive coragem ou jeito ou arte

o sonho esfumaçou

e nada adocicou meu amor a minha vida

nem mesmo quando ganho nas cartas

nem mesmo quando perco

Se pudesse nunca teria virado adulto

 

Não é possível pensar e ser feliz

moça-e-chuva

 

 

Ainda bem que no meu caso a depressão é suave, ele pensou. Bem, se tem que ser doença e tem que ser depressão, pelo menos que seja suave. Era algo que não o impedia de ir até a loja de tinta ou buscar a filha na escola. Pobre menina, crescer com um pai depressivo, mas a gente não escolhe as doenças que vai angariar nem a família onde vai nascer. Ainda assim, pobre menina, pensava Oduvaldo, todo fim de tarde que conseguia ir buscá-la na saída da escola. Depressão, pelo lado bom, era efeito colateral de ter inteligência. Embora fosse obrigado a admitir que havia gente inteligente que não era especificamente deprimida. Mas tinha certeza que pessoas medianas não eram deprimidas, e portanto podiam almejar e conseguir felicidade ou qualquer coisa que leve esse nome embora sem ser. Ou, se não felicidade, pelo menos conseguiam o bastante para se declarar bem resolvidas, o que não deixa de ser um avanço. O que não era seu caso, nunca tinha sido e sem qualquer perspectiva de vir a ser. Talvez fosse por causa do nome que os pais lhe deram, pensou, mais uma vez. Quem dá um nome desses para um filho? Alguém que não quer a criança, que a teve muito cedo, bem antes da hora, num momento em que os hormônios falaram mais alto do que a lógica ou a perspectiva de ter um futuro. Lembrou-se de um episódio em que a filha cantava e, ao chegar ao refrão, pediu ao pai que cantasse junto, mas ele permaneceu em silêncio. Você não cantou, ela disse. Cantei na minha mente, ele respondeu, porque lá pelo menos eu sou afinado. Mas a verdade é que nem lá. E, no entanto, naquela tarde Oduvaldo não conseguiu buscar Matilde na saída da escola. Ligou para a loja de tinta e pediu para uma funcionária ir até a escola e levar a menina para a casa da tia. Quando o corpo de Oduvaldo foi encontrado, o bilhete pedia desculpas à filha e trazia uma orientação específica: que evitasse ser deprimida. Mas a gente não escolhe as doenças, nem a família onde vai nascer.

 

É preciso alguém para conversar

Foto | Giulia Pesarin
Foto | Giulia Pesarin

 

 

Ele era curioso, é bem verdade, mas o calor prostra todo mundo e ele não conseguia ficar imune. Estava dividido entre a curiosidade e a lassidão naquele dia em que o sol parecia especialmente determinado a castigar a terra. Sua curiosidade, entretanto, não se atinha a dados quantificados ou exteriores. Ele gostava especialmente de ouvir as pessoas a expressar inquietações, seja na forma de angústias ou como paixões. Não era exatamente bom conselheiro, mas bastava ser ouvinte, observador imparcial num mundo em que ninguém escuta ninguém embora na aparência todo mundo se exponha muito e praticamente o tempo todo e tudo terminava bem para seu lado. Sobretudo mostrava curiosidade por essa característica humana que percebia nos outros de desejar tanto e tão intensamente um interlocutor para problemas, crises, animosidades, alegrias, alguém que escute a esse, o quê?, narcisismo simplesmente não comporta tudo o que era. Além do que a palavra narcisismo tem certa carga negativa com a qual não concordava. Implica dose exagerada de egoísmo e embora se possa reconhecer que egoísmo é um dos componentes da vontade de interlocução, não dá conta de tudo. Ele poderia escrever um tratado a respeito do assunto, mas o calor o desanimava e de modo geral parece impraticável desenvolver raciocínios densos do lado de baixo (ou muito próximo) da linha do Equador, embora de vez em quando ocorra, com gente mais tenaz e preparada do que ele.

 

Fúria do cotidiano

Imagem | Nigel van Wieck
Imagem | Nigel van Wieck

 

 

O horóscopo diz dia bom

eu digo não crer

 

A placa anuncia sonhos

mas não posso — e passo

 

O chefe reclama

aceno com a cabeça

 

O dia está quente

compro picolé o calor prossegue

 

Amigos ligam para reclamar que sumi

lastimo e minto que devo aparecer qualquer dia desses

 

A bolsa sobe — ou cai

Não ligo a mínima

 

Vai estrear um filme que esperei para ver

mas agora a vontade passou

 

Compro um litro de leite

Só então lembro que o gato morreu

 

A moça sorri no telejornal entre uma tragédia e outra

Não a conheço e abomino

 

Cinco pedras de gelo aliciam o uísque

um calor de renovação me percorre as veias

 

O horóscopo sobre a mesa insiste no dia bom

Esganaria com prazer quem o escreveu

 

Como emagrecer

 

cãozinho

 

 

Ele permaneceu em silêncio durante todo o voo, mergulhado nesse lado interior que o pensamento insiste em iluminar para que o sujeito volte a pensar mais uma vez a respeito de si mesmo, de limitações pessoais e possibilidades projetadas, como se tivesse sempre diante de si a balança da existência a medir as diferenças entre vantagens e atropelos. Quando buscou a mala na esteira e em seguida pediu ao motorista do táxi que o levasse ao hotel onde havia feito reserva, reteve durante um bom tempo a sensação de que chegara o corpo, mas algo faltava aterrissar, como se houvesse esquecido no avião (que ainda seguiria diversas rotas naquela noite) uma parte importante de si que não teria como recuperar de volta. A cada viagem, sentia ficar mais econômico e magro, como se deixasse pelo caminho o que não era mais necessário carregar. Haveria tempo em que nem mesmo carregaria mala.

 

Lembrar a infância

Foto | Lorraine Healy
Foto | Lorraine Healy

 

 

Meu analista me recomendou que escrevesse a respeito de minha memória e da infância. Tudo o que você conseguir se lembrar, ele disse, sério. Pensei imediatamente no romance de Italo Svevo, A consciência de Zeno. Passei numa papelaria e, dessa vez obediente, investi algum dinheiro sério num bloco de anotações que me agradou, importado e caro como um fígado ou um rim. Era o primeiro passo rumo à cura para iniciar o tratamento. Ou rumo a mais deslavada invenção, porque decidi que iria me dar uma infância atribulada e aventuresca, bem diferente do que tinha sido na verdade, com orfanatos, fugas espetaculares, sequestros, abduções, reviravoltas. Se minha doença não tiver cura — verdade é que de fato não creio que exista, é crônico e insolúvel meu problema —, pelo menos posso angariar algum reconhecimento como escritor de falsas memórias e lançar uma carreira literária, quem sabe. Então, a elas.

Tudo começou em…

 

Qual o seu número

Imagem | Mateusz Rybka
Imagem | Mateusz Rybka

 

 

Você nasce

e te dão uma pulseira no hospital

com um número

um código uma cifra

um início registrado

Você morre

e seu pé ganha uma etiqueta no necrotério

com outro número

outro código nova cifra

o fim catalogado

 

Você tentou outras tantas coisas

na vida

— emoções

lágrimas

destemperos

gritos

brados

fazer a diferença (mas qual?)

 

Você tentou tudo

Tudo do mesmo jeito

achando que era inédito

sem ser

 

Escapar dos números

e desviar das balas

Super-herói e mega-vilão

risos sem fim

o deslimite regulado

controle transigência

 

Você acha que sabe do que é feito

depois de anos terapêuticos

Você sabe que não sabe de nada

e se soubesse não contava

 

Você acha que sabe do que está falando

e com quem está falando

e o importante é dizer

— ou calar

Você cala

De que adianta

uma coisa e outra

 

Você pondera

Paciência é um estudo

de anos de impaciência

 

Sua vida é um limbo

Importou para você e só

Os outros fingiram ligar

mas só se importaram com eles mesmos

e não foi suficiente

Nunca é

 

Você envelheceu

Encinicou

Ficou remediado

Os números na conta bancária

ações investimentos

no que sempre fingiu desprezar

e hoje tanto te preocupa

 

Sua lápide terá bonitos dizeres

e um recado de entes queridos

Adorado esposo amado pai

A morte apazigua

Lerão a lápide

Mas toda vez que tiverem de localizá-la

recorrerão aos administradores

dos seus restos mortais

e eles darão um número

que ajuda a encontrar

o buraco onde te enfiaram

e enquanto você apodrece no escuro

te louvam as qualidades de pedra

para qualquer passante

se impressionar — entre um bocejo e outro

Agora me diz

valeu a pena?

 

O que vai, o que volta

Foto | (desconhecido)
Foto | (desconhecido)

 

 

Todas e tantas juras de amor conectadas por ligações telefônicas mensagens digitadas gravações de voz enviadas por aplicativos que usam internet todos os amores trocados as juras os segredos universais as três palavras mágicas o significado de todas as conexões a mesma conexão o mesmo amor universal o segredo mais bem espalhado do mundo e a outra metade os desarranjos os não te amo mais os nunca te amei tudo não passou de ilusão os meu coração vagabundo os não vai dar certo desconexões bater o telefone na cara bater na cara ir embora para nunca mais voltar meu copo meio vazio e o seu metade metade entropia desacerto união juras eternas de uma semana de duração conexões o amor do mundo o desamor no mundo crise sorriso estou ansioso para te ver só liguei para ouvir sua voz desliga você não você ad infinitum.

 

Encontro inadiável

Foto | (desconhecido)
Foto | (desconhecido)

 

 

Atrasado para encontrar o destino, F. escapa da chacina da vez — três homens no bar para onde se dirigia executados à queima-roupa. Mas um raio o atinge indiretamente: cai sobre um galho que se rompe e desaba sobre o corpo de F. Uma ambulância é chamada, recolhe F., que começa a receber os primeiros cuidados. Na pressa, entretanto, a ambulância se envolve num acidente e todos se salvam com ferimentos leves, menos F., que parece ter sido finalmente alcançado.

 

Pausa na guerra

Foto | Garry Winogrand
Foto | Garry Winogrand

 

 

Então decidiram fazer intervalo na guerra por um instante, pois é verdade que esse negócio de matar dá trabalho e tem alto custo emocional para os envolvidos. Na trégua, propuseram fazer um baile e aproximar as partes, aproveitando que havia a pausa e todos estavam de acordo com os termos. Então começaram a erguer brindes e a cantar canções e houve um momento em que o general estrategista de um dos lados comentou com o general estrategista do outro: “Ainda bem que as guerras continuam a ser iniciativa dos homens. Quando as mulheres aderirem, a coisa vai ficar realmente feia, porque elas são implacáveis”. O outro general, que nunca havia se debruçado sobre a questão, pensou a respeito do assunto: será que tinha ouvido aquilo como tentativa do inimigo de manipulá-lo, mas quando concluiu que não começou a convocar mulheres e seus exércitos derrotaram o adversário muito rapidamente.

 

Modelos de narrativa

Foto | Jose Diniz
Foto | Jose Diniz

 

 

O homem saiu da neblina como se estivesse nadando peito: cortava o ar branco a sua frente com as mãos unidas e o punha para trás pelas laterais do corpo, enquanto as pernas se dobravam e depois se estendiam, para empurrar. Pensei: estou sonhando, só posso estar sonhando. Mas minha consciência, essa infame, me desmentia, eu estava acordado. Então louco, talvez?, ponderei. E esse modelo de racionalidade talvez confirmasse a loucura. O homem se aproximou e ao passar ao meu lado, virou o rosto para mim e disse:

— Talvez você esteja numa narrativa surrealista.

Devo dizer que aquilo, ao esclarecer a situação, me tranquilizou muito.

 

Cadê Teresa

Foto | Jenny Gage e Tom Betterton
Foto | Jenny Gage e Tom Betterton

 

 

Também podemos chamar outro nome, ou em outro lugar.

Italo Calvino — Um general na biblioteca

 

As mãos em concha, o prédio em Brasília, gritei para o último andar:

— Teresa!

Apareceu alguém para me ajudar e depois mais um. A solidariedade do grito, achei bacana. Contava um, dois e três, depois juntos escandíamos:

— Te-reeee-saaa!

Alguém teve a presença de espírito de perguntar se o interfone estava quebrado. Acenei com a cabeça e disse: é capaz.

Até que alguém se deu conta.

— Você não mora aqui, nem ninguém chamada Teresa. Você só está imitando o que leu num conto do Italo Calvino. Eu conheço o livro, me lembro disso.

Como eu confirmasse, com a cara mais lavada do mundo, eles se foram, me chamando de cretino e farsante, entre outras coisas. Parecia que ela estava só esperando que todo mundo se dispersasse, como se fosse a pessoa mais tímida deste mundo. Teresa apareceu na janela, sorriu para mim e se inclinou para que eu a ouvisse melhor:

— Sobe, vou abrir.

 

Ponderações à toa

Imagem | Yang Cao
Imagem | Yang Cao

 

 

1

Quer dizer que você é candidato a ser a pessoa mais infeliz do mundo? Pegue a senha e aguarde ser chamado, por favor.

 

2

Escritor é o sujeito que apresenta alternativa para a miséria do mundo. Ou seja, ficção é um tipo de anestesia existencial.

 

3

Ser infeliz é fácil e o mundo te propicia todas as oportunidades para isso. Ser feliz é uma arte, mas sem alguém que a domine. Felicidade é utopia, a cenoura que empurra para a frente.

 

República do protesto

touro

 

 

As pessoas estavam se manifestando o tempo todo, a respeito de rigorosamente tudo. Não saíam de casa sem um cartaz na mão que dissesse o quão revoltadas estavam com o estado das coisas. Havia cartazes engraçados, provocadores, irônicos, desaforados, impertinentes, havia de tudo, até um sujeito que se revoltou contra a trajetória e a direção da Lua em torno da Terra e desta em torno do Sol. “Melhor girar para o outro lado”, sugeria o cartaz revoltoso. Um sujeito, solitário e com os olhos meio arregalados nas órbitas, protestou sozinho contra o que seu cartaz chamava de epidemia dos protestos. Esse foi o único cidadão que enviaram para a cadeia e impediram de manifestar o pleno exercício da alegada democracia e liberdade de expressão. Já pensou se a moda pega?, comentou o juiz que lhe deu a sentença, repreendendo-o na corte.

 

Sobre o otimismo

grãos-de-café

 

 

Adquiriu otimismo como se adquire uma doença: de maneira inadvertida e indesejável. Dizia não ter forças para evitar ver o lado bom e promissor das coisas. Eu olhava em volta e via tudo se desmoronando: guerras, conflitos, ambições desmesuradas, corrupção e não me restava alternativa a não ser achar que o meu amigo estava louco. Ouvi-lo falar do copo meio cheio tornou-se tormento e em mais de uma ocasião me vi forçado a conter meus punhos para não lhe dar um soco. Era irritante demais aquela posição que ele adotou: era improvável a não ter mais fim e no entanto estava lá. Então um dia eu e os que se irritavam junto comigo pudemos respirar aliviados, o que nosso amigo tinha era realmente um distúrbio cerebral que lhe provocava o otimismo exacerbado, ele foi diagnosticado. O que não foi surpresa: meu amigo recusou-se à cirurgia oferecida, que poderia lhe restabelecer a correta dimensão da realidade. Preferiu manter o filtro que a doença lhe proporcionava e não tive remédio menos amargo a não ser apoiá-lo na decisão e continuar me irritando com ele e com o otimismo inabalável. Faria de tudo para disfarçar minha inveja.

 

Quando chega o fim

carro-e-sofá

 

 

Ela estava quebrando a louça e nossas memórias no mesmo gesto furioso de as atirar contra a parede. O passado tem formas estranhas de se manifestar. Lembrei dos amigos reunidos em torno daqueles pratos, próximos de nós na felicidade da refeição e das histórias compartilhadas. Lembrei dos jantares silenciosos em volta da mesa, ela e eu, em que engolimos a sopa e nossos ressentimentos, as mágoas de sobremesa, as reconciliações guardadas para o dia seguinte. Nossa vida conjugal fraturada ao longo dos anos e agora, despedaçada de vez ali, com aquele gesto de jogar a louça, de gritar, os vizinhos, supus, já deviam estar chamando a polícia, íamos envolver todo o prédio em nossa separação, todo o bairro e depois todos os presos da delegacia. Seríamos manchete dos jornais do dia seguinte, estaríamos nas discussões das redes sociais, no trailer antes do filme, sem qualquer temor de estragar o enredo: nossa separação era igual a de tantos outros casais, talvez apenas um pouco mais ruidosa e com menos porcelana no fim. Como íamos repartir os amigos, lançando-os contra a parede? Metade para ela, metade para mim? Impossível, não daria certo. Quando só tinha um último prato, renovei as esperanças: quem sabe um novo jogo de jantar e aquela explosão nos colocaria de novo nos trilhos, uma sobrevida, prontos para começar nova etapa do casamento? Foi que o propus a ela, sem muito sucesso, no entanto. Quando uma mulher se põe a jogar a louça contra a parede é porque o ponto de reconciliação foi ultrapassado há muito tempo. Agora sei disso. Dividimos um último item da nossa cartela conjugal: as aspirinas, que só curam as dores da superfície.

 

Crises, síndromes e que tais

Foto | Burt Glinn
Foto | Burt Glinn

 

 

A taxa de desvalorização da memória a partir de certa idade é sempre mais acentuada do que a valorização do dólar. Grandes buracos, feito queijo, que nunca serão preenchidos. Há a lembrança encardida de uma emoção, o traço do sorriso dela que permaneceu como a farpa de um lembrete da minha finitude iminente. Você ainda está novo para pensar nessas coisas, mais de um amigo me advertiu. Isso é apenas sintoma da crise de meia idade. E tentam me dar um tapinha condescendente nas costas, mas me esquivo. Crise de meia idade é o cacete. Ninguém sabe com que idade vai morrer, que porra é essa de estabelecer marco regulatório que determina um meio do caminho para te liberar para começar a ter surtos? Vociferei para todos eles e ainda precisaria de muito tempo para entender que essas explosões, esses destemperos também eram parte do surto, da crise ou lá que nome queiram dar. Por mim, podiam chamar de Síndrome do Homem Falível. A compreensão da mortalidade se torna um soco na cara a cada manhã gloriosa. A ruga a mais no canto do olho, o fio extra de cabelo branco. Até aqui você pôde se dar o luxo de cometer equívocos, doravante tentará se comportar com retidão, como âncora existencial para os demais. Eu achava que âncoras existenciais eram os filhos, eles te impedem quase sempre de fazer as grandes asneiras. Te restam as pequenas, as desimportantes. E ali estava eu, a arma no criado-mudo a me acenar, as lembranças do traço do sorriso dela e o calor interno que aquela imagem ainda me provocava, a meia idade rosnando e exibindo seus caninos para mim. Eu precisava decidir.

 

Esperança é vício

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Regular o futuro e as esperanças pelas estações. Regular o passado pelas memórias, recompostas ou fidedignas. Mas o que alguém pode saber do meu passado, por mais que eu insista em relatos circunstanciados? Havia uma vaca com dificuldades de parir, por exemplo, e meu avô chamou um veterinário e me deixou assistir à intervenção no curral a céu aberto: ele enfiou o braço dentro do traseiro da vaca e puxou de lá o bezerro, que estava com as patas para fora mas não nascia. Um deles, talvez os dois, vaca e bezerro, se salvaram e se tivesse que fazer uma aposta diria que foi o bezerro. O veterinário ficou com o braço encharcado e a autoconfiança de quem realizou bem o próprio trabalho. Mas de que adianta esse relato, a mim, aos outros, a quem seja? A vaca e o bezerro já morreram há muito, meu avô também, logo será minha vez. Eu conto, no entanto, na esperança (essa centelha do futuro que ainda insiste comigo no poder das expectativas) de que algum neto me leia (meu avô só deixou livros-caixa; não sei nada a respeito do que pensava) e me entenda, ou pelo menos saiba o que me inquietava, quando eu era vivo. Meu avô deixou terras, que se converteram em dinheiro também para mim. Meus netos terão minhas palavras, que valem pouco do ponto de vista prático, mas talvez lhes sirvam para alguma coisa. Tenho esperanças, elas me alimentam de futuro.

 

É relativamente simples

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Você caminha sobre a superfície da terra e vamos dizer que se chama João ou Roberta. Há lojas nas quais pode entrar e, ao passar pelas calçadas, ergue os olhos para os prédios altos e além, para o céu azul ou pintado com nuvens cinzas e ameaçadoras. E então você desce para o metrô. Usa as escadas ou, em geral e a depender da preguiça, escadas-rolantes. Lança o bilhete na reentrância da catraca e vê a seta verde no visor, indicando que a entrada foi liberada. Aparece outro nível de descida, novamente escada e escada-rolante. Eis que surge a plataforma, com aparência de bem ou mal cuidada, a depender da cidade, o mapa das linhas bem grande numa das paredes e a confusão das cores, sobretudo o grafite de fuligem das paredes do outro lado e depois o prata envelhecido do trem, quando ele chegar. Você entra junto com outras pessoas e, se for hora de baixo movimento, é possível que dê sorte de encontrar cadeira para se sentar. Nas descidas e viradas para lá e para cá seu senso de orientação foi afetado e você não consegue mais saber exatamente para que lado está indo. Mas se entrou no vagão certo chegará ao destino desejado. O trem parece um comprimido, cápsula ampliada. Você seria, nessa situação, os grãozinhos que as cápsulas de medicamento contém, o que não deixa de ser um pensamento otimista, porque talvez você seja a cura da doença que aflige algum sistema, algum corpo gigantesco do tamanho da cidade. Ali dentro do trem, no entanto, você não consegue ter essa perspectiva a respeito da própria vida. Seus pensamentos se dispersam pelos mais variados assuntos, quase todos sobre a natureza dos seus conflitos existenciais. O chacoalhar contínuo, o ritmo levemente trepidante mas também macio, tudo te distrai e ao mesmo tempo solicita sua atenção: é preciso ficar alerta para não passar do seu ponto. Talvez algum passageiro te faça perder parte da concentração, pelo aspecto, pela beleza ou justamente a ausência enfática dela, ou simplesmente porque tem dois fios dependurados ao lado da cabeça, a partir dos ouvidos. Qual a trilha sonora que aquele indivíduo escolheu para o mergulho nos subterrâneos é talvez informação que você nunca vai deter. Com o aproximar da estação desejada, os níveis de alerta do seu sistema se elevam e você começa a desenhar cenários, pensando em quantos saltarão também e para aonde estarão se dirigindo e com que propósitos. Reunidos naquele cubículo em movimento, se dispersarão assim que as portas se abrirem. O movimento para sair se inicia, é rápido e eficaz. Em questão de segundos, soará o apito que vai indicar o fechamento das portas e em seguida o reinício do movimento do trem. Vocês que desceram se dirigem à saída, às escadas para cima, às curvas e novamente catracas e novamente mais escadas. Há uma nuvem de ansiedade fingidamente controlada no ambiente. As últimas escadas e, pronto, você está de volta à superfície, em outro local da cidade. Desceu e agora subiu, uma metáfora do vai e vem da própria vida. Talvez seja bom lançar um olhar em volta, garantir que as lojas continuam ali, ao rés do chão. Mas depois será bom olhar para cima, para os prédios altos, se houver, e para além, as nuvens cinzas ou o céu azul. A viagem é bem mais longa do que você supunha. Está apenas começando.

[primeira de uma série de histórias com um tema em comum: viagens pelo metrô. O livro chama-se Subterrâneos e é inédito]

 

Memórias embaladas

Foto | José Diniz
Foto | José Diniz

 

 

Passou a noite acordado, cheirando carreira depois de carreira de cocaína e ingerindo uísque em quantidades que beiravam a overdose. Depois viria a rebatida, estava ciente, uma ressaca física e moral, a constipação das narinas, a mente encolhida ao essencial ou nem isso. Mas naquele momento, a cabeça a mil. Memórias, pensou. Conexões difusas se estabeleceram. Ter consciência da memória — usufruir dela — é ao mesmo tempo o que salva e a maldição: estar condenado às lembranças (o que fazer com elas? Emocionar-se toda que vez que acessá-las? Bá), saber, por memória, que do mesmo jeito que os antepassados morreram você também vai morrer um dia. Só não há, não pode haver, memória do amanhã. O acúmulo do passado é a ruína do presente, a lentidão cada vez mais intensa do rio que recusa a gravidade e se submete a ela com morosidade. Ele precisa dar jeito nesse monturo de ruínas, descartá-las, reciclá-las, sei lá o quê, mas dar jeito. Só não será com a aceleração do presente promovida pela combinação de cocaína e uísque. Mas talvez a essa conclusão ele não chegue, se a overdose vir antes e só — e apenas só — se for fatal.

 

Os nomes

Foto | Elena Martyniuk
Foto | Elena Martyniuk

 

 

Chega um momento em que você se acostuma com o nome que tem, embora nunca falte oportunidade para se questionar de novo o que os pais imaginaram na hora de decidir como você seria chamado até o fim da vida. É o que anda pensando Geraldo. Ele acha que o nome envelheceu, que é um nome em desuso, impopular. Na escola, os amigos enchiam a paciência por causa da parte do seu nome que passou a ser uma gíria muito usada, com o significado de todo mundo. Geral vai para a festa, diziam, ou geral gosta de viajar. Geraldo sempre percebe a ironia que envolve esse nome que é sua insígnia no mundo nesses momentos. Um nome pode determinar quem ou o quê você será na vida, ele pensa, e embora deva estar se preocupando com coisas mais sérias, ele não pode deixar de pensar que há um mistério escondido na enunciação do seu nome, ao qual não consegue fugir. Mas Geraldo segue sendo Geraldo, pensando ou não a respeito do problema que o aflige, e a certa altura deixa mesmo de achar que aquilo é problema. Geral continua gostando de festa.

 

Felicidade comprometida

 

lençóis

 

 

Havia essa cidade em que as pessoas sorriam muito e festejavam em tempo integral. Uma felicidade enlouquecida parecia ter tomado conta dos habitantes. Então, começaram a aparecer os turistas, atraídos pela notícia de um lugar em que todo mundo era feliz. Queriam ver com os próprios olhos e partilhar da alegria, se possível. Alguns começaram a perceber e assinalar que a cidade estava descuidando da economia, ninguém vive só de sorrisos e festas. Não demorou para ficar igual a outra qualquer.

 

Para o buraco

Imagem | Giorgio Ortona
Imagem | Giorgio Ortona

 

 

O país está indo para as cucuias, mas quando é que não não esteve?, ele pensou. Não se afunda um país, é impossível, as pessoas sempre dão um jeito de se reinventar, de juntar os cacos, de colar os fragmentos. Mas sempre que abre o jornal e se põe a ler, tem a impressão de que a coisa está feia, está piorando, fica mais decadente e acintosa. Mas então decide ser honesto e olha bem o rosto no espelho. O que está indo para as cucuias é você, meu caro, ele diz para a imagem no espelho, que lhe dá um sorriso melancólico de volta.

 

Chances do acaso

Foto | Luis Sanchis
Foto | Luis Sanchis

 

 

Ele estava interessado em escrever uma história na qual a noção de destino e coincidência é posta em xeque — na qual os cálculos de probabilidade revelam-se tão ciência quanto as cartas do tarô ou a disposição das estrelas nos mapas astrológicos. E, na verdade, a história que decide escrever parte de um desenho estruturado e fornecido por Vladimir Nabokov em A verdadeira vida de Sebastian Knight. O narrador deste livro conta resumidamente o conteúdo de um romance escrito por Knight, chamado Sucesso, que lida “principalmente com os métodos do destino humano”. As conclusões do romance de Knight diferem daquelas do nosso autor aqui, chamemo-lo R e poupemos com isso exposições desnecessárias e pormenorizadas. Acontece que R pode muito bem lançar mão de discutir narrativas em que o jogo do destino é posto em ação. Percival, o protagonista tanto do livro de R quanto do romance de Knight, discute no livro do primeiro as teorias oriundas do livro Ensaios de amor, de Alain de Botton, e do filme Os agentes do destino, de George Nolfi (com desvantagem para o filme, que parte de excelente premissa para depois escorregar nas pieguices cinematográficas de sempre quando o assunto é Hollywood), mas a narrativa começa a ganhar ainda mais densidade quando discute as teorias de sincronicidade de Carl Gustav Jung e alguns desdobramentos potenciais de certos contos de Jorge Luis Borges e algumas teorias do tempo adotadas por Paul Ricoeur em Tempo e narrativa. Tal como fica explícito na síntese de romance dentro do livro de Nabokov, a perseverança do destino jamais se desanima com o fracasso — todo escritor que se preze gosta de flertar com a ideia de um destino sob controle — e quando os personagens recompõem suas vidas e finalmente se encontram, “é por meio de maquinações tão delicadas que não se escuta nem o menor clique”. Claro que o amor é excelente pretexto para se falar dos dedos lambuzados do destino. Entretanto, todos se negam a reconhecer que o acaso é o melhor escritor, o mais criativo, embora isso seja tão verdadeiro.

 

Sono e guerra

paraquedistas

 

 

Pensar que passarei um terço da vida mergulhado em sono e sonho. Me faz pensar em escrever um Manual beligerante do ser humano, que explicaria o talento incontornável para a guerra (inclusive a de mentira que são as disputas esportivas: a guerra diplomática da civilização). Sono e guerra, duas faces da atividade inquieta que define o humano. E multiplicar-se pela fornicação, outra tarefa definidora, mesmo quando banhada de civilização e atenda pelo nome de amor. Na falta de perspectiva que a solidão oferece, escolhe-se superar uns aos outros, em disputa eterna. Acontece que o plano tem problemas de fundo, nunca devidamente resolvidos.

 

Solteiros e casados

mãos

 

 

A certa altura da vida parece que todo mundo é casado, ele leu num romance que se concentra na vida amorosa e nas memórias de um editor. E então, no momento seguinte, pensou por conta própria, parece que todo mundo se separou. Mas aí, quando você olha direito, percebe que muitas pessoas estão casadas, muitas separadas e um bom número se encontra em transição entre um estágio e outro. A inquietude movimenta as pessoas, faz com que estejam sempre insatisfeitas e olhando para o futuro, farejando o ar à procura da próxima alteração que virá. Ele, por exemplo, acaba de se separar pela terceira vez e pensa a respeito de quando vai aprender a lição. Mas aí o telefone toca e são os amigos chamando-o para sair e lá vai ele, rumo ao futuro e às mudanças.

 

Sério

Foto | Gianni Berengo Gardin
Foto | Gianni Berengo Gardin

 

 

Ele era poeta, o que não abona qualquer pessoa, mas enfim. Era como se apresentava, quando alguém lhe perguntava o que fazia. Sou poeta, dizia, e não estava de gozação. Venho de uma família séria, ele dizia, sério. Era o que tinha ouvido a vida inteira — o traço de orgulho de que a família gostava de se gabar: eram gente séria. Se reconstruíssem a árvore genealógica, chegariam a algum remoto bandeirante, misto de caixeiro viajante e desbravador, com um toque de aventureiro. Seu pai tinha esbravejado quando ele disse que ia largar a faculdade de direito — não queria, não suportava a ideia de virar advogado, explicou — e começaria a escrever poemas. E vai viver de quê?, o pai lhe perguntou, as veias do pescoço prestes a escapar. Porque do meu dinheiro é que não vai, acrescentou, sem a necessidade daqueles óbvios xingamentos a respeito de se tornar vagabundo etc. Ele se virou por uns tempos com alguns amigos, arrumou bicos, trabalhos subalternos e humilhantes que jurava que lhe serviriam de inspiração. Quando o encontraram nessa festa, ele ainda estava firme no propósito de ser poeta, embora soubesse que jamais ia viver disso, direta ou indiretamente. Poeta é efeito colateral de alguma outra atividade. Ele ia se transformar no cara que envelhece lendo Maiakovski na loja de conveniência, como diz a letra de uma canção popular, embora preferisse Akhmatova, no caso da poesia russa. Triste e melancólico — e profundamente poético, o que talvez caía bem.

 

Esticar a lei

Foto | Markus Jans
Foto | Markus Jans

 

 

Ele começou como detetive, acumulando indícios da culpa alheia em provas de crime e em atribuição de responsabilidades. Havia também, claro, isso sempre existe em alguma medida, a curiosidade pela vida alheia, pelo modo como os outros organizam ou bagunçam a própria vida e os objetos em volta. Mas, à medida que foi se enveredando pela profissão e premido por um comportamento (hábito? rebeldia?) pouco afeito a respeitar limites da ética, abandonou o estágio policialesco que tem a presunção mal resolvida de querer corrigir desmandos alheios e abraçou primeiro timidamente mas depois com gosto os princípios que levaram as outras pessoas a cometerem crimes. Tornou-se muito bom no que fazia, porque conhecia os métodos de investigação e sabia como evitá-los melhor, mas também e sobretudo porque afrouxou ao extremo o rígido controle moral que era sua bússola e adotou uma lassidão extrema ao abdicar com radicalidade do mecanismo da culpa. Há sempre um modelo de reequilíbrio de distribuição de renda no ato de roubar, um princípio interessante, como ele pôde comprovar. O que torna os bancos maus ladrões é o fato de que acumulam capital alheio e o mantêm entre uns poucos associados, em vez de redistribuí-lo. Não foi o caso com o ex-detetive: era generoso com os ganhos obtidos e comungava do princípio de fácil vem, fácil vai. Por isso foi mais perseguido, de forma implacável, e finalmente jogado na prisão. Onde já se viu, abalar as bases do capital dessa maneira tão vil?

 

Psicanálise da rejeição

Arte | Kent Williams
Arte | Kent Williams

 

 

Escritores escrevem e sofrem recusas, várias, sucessivas vezes. Acumulam nãos, cartas negativas, como se fossem o avesso de prêmios que supõem merecer. Depois, no futuro, concedem entrevistas nas quais explicam o que julgam terem sido os motivos para tanta rejeição e, velada, discretamente, agradecem o fato de terem sido enfim reconhecidos em talento. Agora são parte do outro time, vitorioso, as cartas de recusa podem fazer parte do anedotário pessoal relegado ao passado. O estigma foi vencido. Mas não há quem estude e compreenda o efeito dessas tantas recusas na vida emocional dessas criaturas que vêm de fábrica já emocionalmente perturbadas, para início de conversa, a ponto de terem escolhido como atividade justamente escrever. Em alguma oportunidade, poderão talvez escrever uma carta de recusa a um editor e nesse dia começa a vingança.

 

Mudança e volta

Foto | Gianni Berengo Gardin
Foto | Gianni Berengo Gardin

 

 

Mestre absoluto no quesito procrastinação, ele achou que passara da hora de mudar de hábitos e tornar-se ativo, antes que a preguiça lhe criasse de vez raízes profundas demais para serem arrancadas. Tentou dança de salão, ciclismo, esgrima, golfe e meditação, atletismo, saltos ornamentais (desistiu porque achava os ornamentos inapropriados para um mundo em combustão). Tentou o mais difícil dos combates ao ostracismo: o cultivo das amizades, noites de debate ou saídas ao bar, discussões terapêuticas a respeito de política e economia, os desrrumos da nação, o impalpável do pensamento. Tudo aquilo, no entanto, parecia-se demais com um agitar-se desesperado que lhe impedia de ver o vazio no centro de sua vida, o grande e impactante vazio a ser preenchido talvez com memória, como fazem os escritores? Ou com lamentos, como fazem os nostálgicos excessivos. Procrastinar é exercício suficiente, proferiu e preferiu, estimula a pensar, a ter ideias, a imaginar mundos. E o que o mundo precisa é de alguém que o imagine com bastante intensidade. Nisso acho que todos estão de acordo.

 

As coisas não se ajeitam

Arte | Marc Folly
Arte | Marc Folly

 

 

Abri a porta do escritório e Lauro estava com a miniatura de rastelo na mão, fazia desenhos na areia do jardinzinho japonês. Ele levantou os olhos. Você é um cretino, eu disse. Ele não se abalou, claro. Nesse nosso ramo ser chamado de cretino é o mínimo que acontece. Lauro levantou a sobrancelha. O que foi?, indagou. Elisa me contou o que aconteceu, falei. Ele voltou a chafurdar a areia, como se fosse revelar o segredo escondido ali. O que foi que ela te disse que aconteceu?, ele quis saber, como se fosse simplesmente mais uma conversa protocolar ou eu fosse apenas mais um cliente chatonildo a quem se deve explicar o básico da linguagem publicitária. O que ela me disse?, fiquei indignado, ou o que realmente aconteceu? Ou você não passou uma cantada nela, seu filho da puta? Ele voltou a erguer os olhos de peixe morto. Ia adiantar se eu contasse a verdade?, ele disse. Que ela me cantou e quando eu disse não ela ficou puta e disse que ia se vingar e inventar uma história a meu respeito para você, só para me sacanear? Bem, foi isso, ele acrescentou. É uma boa historinha essa sua aí, eu disse. Pena que não cola comigo. Pois é, ele disse, pena mesmo, porque você no máximo ia ficar pensando no que foi, no que não foi, e a tendência vai ser acreditar nela e me tratar como o cretino que sou. Mas não nesse caso. Para minha sorte, ou porque sou inteligente e prevenido, gravei a conversa. Ele puxou do bolso o gravador, colocou-o sobre a mesa e ergueu de novo a sobrancelha: quer que eu ligue? O resto foi como se pode imaginar, a prova de que a cretinice não é prerrogativa exclusiva de publicitários no exercício da profissão.

 

Transplante de solidão

Arte | Kent Williams
Arte | Kent Williams

 

 

O homem está sozinho, a não ser pela passagem aérea que tem na mão direita. Não que ela seja ou lhe faça companhia, mas tem o mapa de possibilidades de novas companhias, lá nesse país para o qual se dirige. Os islandeses devem ser frios, mais de um amigo comentou, quando ele disse para onde estava indo pelos próximos quatro meses. Mas há vulcões por lá, portanto eles não devem ser assim tão frios, respondeu todas as vezes. Um fogo intenso arde por baixo da aparência de frio. Um país pequeno, uma ilha esquecida próxima ao Polo Norte, deve ser perfeito para se esconder, para se retirar da agitação cada vez mais ruidosa e desnecessária do mundo. O homem se lembra das fotografias de casas coloridas — paredes vermelhas, amarelas, azuis, telhados roxos, cinzas, verdes, como se alguém tivesse resolvido fazer uma cidade a partir de desenhos de crianças como modelo —, da cena em que, num filme, um sujeito desliza de skate por uma estrada no meio de montanhas muito verdes e belas, lembra do vulcão de nome impronunciável, da ideia de experimentar o contraste entre o aconchego do interior de uma casa e o frio enregelado lá fora. Não, teve que responder para vários amigos, não serei vizinho da Björk, vou estudar a literatura de Halldór Laxness. Quatro meses e um mergulho numa nova forma, especial, mais densa, ele espera, de solidão. O táxi buzina lá fora. O homem ergue a mala, confere mais uma vez a passagem na mão para ter certeza de que não se trata de um sonho e abre a porta para sair.

 

Assim meio gordo

monte-roraima

 

 

Ele achava que estava gordo, ela achava que estava gorda, todo mundo acha que todo mundo está assim meio gordo, mais para gordo, gordinho, e porra, pode ser o charme que for, a simpatia que for, pode ser a pessoa mais bacana e gentil do mundo, mas, assim, se você está se sentindo meio gordo é porque alguma coisa — a errada — não vai bem. Você devia se sentir meio tolo, meio vão, meio estúpido, meio cretino ou cretino e meio, mas não, é meio gordo que você escolhe se sentir. Embora nunca tenha sido nem pretenda ser um tipo de atleta que depende da finura para se desempenhar bem na atividade, ainda assim você decide que o importante, o primordial, a essência da vida e o sentido dela é você não se sentir assim, meio gordo e tal. E nunca mais vai conseguir recuperar a capacidade de raciocínio de novo, meu filho, vai ser para todo o sempre e sempre um escravo cretino, cretino e meio, da necessidade de não ser mais assim, meio gordo, gordinho, fora de forma, um bujão, os pneuzinhos laterais, essa forma disforme, essa ameba sobre o sofá, decidida a se agarrar ao sentido verdadeiro da vida e largar para lá o exercício e a dieta que vão te botar nos eixos. Então decretei, súbito: gordo, sim, meio gordo, sim, com orgulho e foda-se quem achar outra coisa. E, livre, passei a pensar no que realmente importa. Mais leve de cretinice.

 

Coisas erradas

Imagem | Oliver Flores
Imagem | Oliver Flores

 

 

A melhor professora que tive, costumava dizer aos amigos. A vida só me ensinou coisas erradas, truques bestas, a ambição de jogar para a plateia, suprema vaidade que alimentei com humildade suficiente para ninguém perceber. Mas todo dia ela pedagogicamente me encaminha para o grande aprendizado ao me retirar o sabor de estar vivo. Sobretudo, é preciso aprender a morrer. Quando for a hora, fingirei o mesmo despreparo que todo mundo que me antecedeu, mas estarei pronto. Que digam a meu respeito que descansei, porque se tratará justamente disso, de descansar, de me livrar do peso infatigável que é estar semi vivo, fingindo que levo a sério esta coisa, sendo que nunca de fato aprendi a viver, ou quis, ou me interessei a fundo pela matéria. Estuda-se muito, a vida inteira, para atingir o ponto de certo de passar no vestibular da vida e entrar na universidade da morte. Fingindo que me ensina as coisas erradas, a vida está me encaminhando direitinho e o fato é que sou bom aluno.

 

Um último recado

Imagem | Nathan Ford
Imagem | Nathan Ford

 

 

Antes que vocês se dispersem, eu gostaria de dizer, eu disse. E olhei a cada um deles nos olhos. Eu gostaria de dizer, repeti, depois da pausa dramática, que o problema da literatura brasileira são vocês, os leitores. Como assim, nós?, uma moça de cabelo comprido e pintado artificialmente disse, tornando-se porta-voz automática do grupo. Não fizemos nada, ela acrescentou, desafiadora, eu diria até que irritada. Pois justamente, rebati, não fizeram nada, e é bem por isso que as coisas estão como estão. Eu tinha engasgado uma vontade de dizer que a falta de leitores era o grande desestímulo do escritor brasileiro. Mas achei que ficava bem deixar as coisas no pé em que estavam e por isso me abstive de acrescentar qualquer coisa. A culpa da literatura brasileira estar como está é de vocês não lerem, aí ela não pode crescer, dizer coisas importantes e profundas, fica assim rasa, superficial, boba. Havendo leitores e cobranças, a literatura se veria forçada a melhorar para agradá-los. A culpa é inteiramente de vocês, bradei, dessa vez me dirigindo a eles, e agora me deixem em paz que quero pensar.

 

Vida alheia

escada-e-sangue

 

 

Havia, houve uma faísca, um pedregulho que jurei que saiu do meu peito, uma alucinação desencontrada e sem destino certo, como os cigarros fumados e a nostalgia de vê-los num velho filme com músicos de jazz e copos e copos de bourbon que nunca me deram ressaca. A dor que sinto é falsa feito um poema que Pessoa não teve coragem de assinar e delegou a um outro. O hábito dos escritores deste tempo: transferir a crise. Rimbaud com o “eu é um outro”; Sartre com o “o inferno são os outros”; Pessoa com heterônimos; escritores de agora com vidas inventadas (o nome é autoficção). É um outro, não sei, a senhora deve estar enganada, pretendo dizer para a Morte quando ela vier me procurar. Toque aí no vizinho, vou sugerir. Que um outro possa ir no meu lugar, que viva minha vida delegada, as aventuras que não tenho coragem de enfrentar, os amores trepidantes que ferverão sangue alheio, os continentes que estou preguiçoso demais para começar a conhecer. A outra nostalgia que tinha era a de encarar os problemas e derrubá-los no soco. Mas contratei um assessor de imprensa, um agente literário, um consultor de imagem, um treinador personalizado, um técnico do viver que me ensine de novo a ter autonomia existencial. Os problemas planetários me atingem, mas só de raspão e desde que eu não precise mudar muitos canais. Houve um tempo em que me balançava num galho de árvore, mas agora tornei-me cinicamente pachorrento e desagradável. Só quem ainda tem fé na humanidade (um pobre coitado que nem me dá mais nos nervos porque parei de pensar a respeito dele e do assunto) crê que é possível reverter alguma coisa e se agita por isso. De onde eu vejo são apenas brumas e escuridão. Roubaram minha vida e nem reclamei, o traço, o resquício de saudade eu sufoquei. Achei que era uma faísca, um pedregulho a me escapar do peito. Mas era a brasa do cigarro de alguém que brilhou num sonho alheio.

 

Treinos da infância

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Houve um dia, ali pelo fim da infância, em que me mandaram para aulas de datilografia. Era uma sala de primeiro andar num velho edifício, a que se chegava por uma escada sombria que desembocava num corredor largo. Por fim, chegava-se à sala cheia de mesas com velhas Olivettis pesadonas. Enquanto olhava com o rabo de olho para o volume sob a blusa da orientadora, fazia somar trilhas de asdfg, depois trilhas de çlkjh, se amontoando na página branca como fileiras de exércitos. Começava ali o jornalista, começava o escritor. Durante anos, no entanto, considerados inclusive os seios desejados da orientadora, aquela sala do primeiro andar serviu de locação para várias passagens da minha vida. Até hoje, é lá minha Wall Street particular onde trabalha (ou prefere não trabalhar) o escrivão Bartleby. Nova York tem conexões com o interior de Goiás, o que comprova que os cenários da imaginação são bem mais interessantes do que os da realidade.

 

Peregrinos insaciáveis

cavalo

 

 

O grupo se reuniu num bar no centro da Europa. Ou seja, pode ter sido em Suchowola, na Polônia, ou em Vilnius, na Lituânia, ou em uma razoável porção de vilarejos, a depender dos critérios que se adote para entender o que é o centro da Europa, num dos seguintes outros países: Áustria, Alemanha, Eslovênia, República Checa, Eslováquia, Romênia, Ucrânia ou Bielorrússia. Importa talvez apenas isso: o bar tem um nome em qualquer das línguas que se queira que traduzido para o português é algo como Bar Central. O grupo tem, no total, dez integrantes, e todos se esforçam para participar dessa reunião anual, mas nem sempre é possível. Desta vez, estão presentes oito integrantes. São todos viajantes, vão de um país a outro transportando carros para levá-los e entregá-los a alguém. A vida que levam é errante, em certo sentido, e comporta elevado grau de incerteza. São nômades da Era Ford, que está com os dias contados e, reunidos, partilham histórias a respeito do que lhes tem acontecido, alguns contam segredos, às vezes um simples relato das rotinas é feito. Falam de solidão, do deslocamento não apenas físico, mas interno. “O curioso é que sempre que nos reunimos aqui, no centro da Europa e, portanto, para muita gente, no centro do mundo, eu me sinta tão periférico”, diz Hans, o alemão do grupo, naquele momento em que as bebidas começam a fazer efeito e certa nostalgia não se sabe do quê se anuncia. “No centro do mundo e no Bar Central”, reitera Gustav, austríaco. Ele começou a atividade aos dezenove anos, dez anos atrás. Nunca mais parou. Ganha o suficiente para continuar a sobreviver, mas não consegue juntar dinheiro. Martha, a única mulher do grupo e a única oriunda da França, tem um aspecto meio másculo e está tão curtida que ninguém parece notar a diferença de gênero, como se não importasse mais. “É minha última temporada”, ela anuncia. Vai se aposentar. Conheceu um caminhoneiro sérvio e vai deixar que ele continue as rotinas de viagens, enquanto ela se dedicará a fazer comida e conversar com as vizinhas a respeito de couves, não se sabe exatamente em que língua comum. Todo mundo está à busca de estabilidade, mas esse mundo velho sem porteira não para de girar, não para de empurrar todo mundo em direção à periferia, não cessa de acusar que o centro é uma ideia ridícula, por mais que se insista em alcançá-lo e aí permanecer.

 

Uma mulher

Arte | Paul Klee
Arte | Paul Klee

 

 

Não sei o que aconteceu comigo para agir dessa maneira, mas o fato é que me pus a seguir essa mulher — não porque fosse especialmente bonita, ou desejável, não de forma convencional, pelo menos; ela era, pelos padrões vigentes, regular; mas não para mim, que me senti magneticamente atraído para o campo dela. Embora tenha sido discreto a princípio, logo fiz questão que ela percebesse que eu estava em seu encalço, queria que se sentisse acuada, que tentasse escapar do meu assédio, que se transformasse em presa e eu, em predador. Mas não contava com a reação dela, que a certa altura e muitas ruas depois de ter tentado apertar o passo e se livrar daquela sombra, no caso, eu, virou-se e me encarou muito séria. Você está me seguindo?, disse, com voz firme, com postura agressiva, com decisão irrevogável, olhando-me nos olhos como se quisesse enxergar a minha alma. Está? Está me seguindo?, repetia, encarando-me e tentando fazer com que eu recuasse. Resignei-me. Ainda tentei o eterno argumento do filho inconformado. Mas, mãe, eu disse.

 

Sobre tempestades

geleira

 

 

Erguer o olhar para tempestade que se arma no horizonte. Encará-la a sério, como se fosse possível, apenas com o poder do olhar, dissolver o avanço da tempestade. Não é possível, mas isto já se sabia, mesmo que se tenha concentrado com seriedade na manutenção do olhar furioso direcionado a ela. Se fosse um relato de Kafka, algo muito estranho, inquietante e inesperado já teria acontecido: sentir-se molhado antes mesmo que a tempestade desabasse, por exemplo. Ou sentir-se molhado sem que haja qualquer nuvem no céu ou qualquer tempestade à vista. O mundo não é um lugar reconfortante. Há muitos recessos e campos abertos para a entrada do medo ou mesmo do desconforto. Ainda assim, dei uma resposta que achei interessante quando me perguntaram se não tinha medo de sair à noite. Não, eu disse, eu sou a razão pela qual as pessoas têm medo de sair à noite. Assim parecia melhor. Queria sentir que posso desmanchar a tempestade simplesmente olhando para ela.

 

Brasília te amo e te odeio

Arte | Constantinos Chaidalis
Arte | Constantinos Chaidalis

 

 

Brasília é um monstrengo. O vazio imenso, a ocupação insana. Onde alguém via espaço negativo, quiseram preencher: negativo é o caralho, imagino que alguém possa ter dito. É preciso preencher cada centímetro, sem falta, como se o vazio fosse falha a ser corrigida. Mas não se consegue mover uma palha contra a amplitude do céu, o espaço negativo superior que encobre tudo. Um monstrengo, nem vazia, nem cheia.